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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Rags to riches

Brincadeirinha, meninas. That chronicle is yet to come, yet to come. Acho brilhante a ideia de escrever na língua do patrão, não vou mentir. Penso em construir um textículo sem firulas, completamente desarticulado do ranço da estupenda vaidade que corrompe a essência do professor desavisado, um mero textículo rasteiro e enxuto, a cabeça e os tentáculos devidamente encaixados, cada coisa em seu lugar, um despretensioso chiste, uma graça apenas, dedicada aos diletos pupilos do Instituto Federal Fluminense casulo Cabo Frio, a exuberante caçarola de hormônios em fúria, borbulhando no meu cotidiano – os meus meninos, “passando por mim e levando destinos tão iluminados de sim”, assim seja.  Aprendi pouco na universidade, não posso mentir. Jazia ali, entretanto, dentro do pouco, camuflado de nada, o papel da verdade: simplificar é o caminho. Simplificar é caminharmos para o amor. Ensinar é olharmo-nos e tocarmo-nos. Ensinar é trilharmos juntos, simples e serenos, a vereda das pedras, de nada adiantando apenas apontar. Quer que aprendam, minha senhora? Faça você mesma o pão, grão sobre grão, deixe-se contemplar e aguarde o convite para a ceia, o lauto banquete que virá.
O assunto da historinha de hoje, propositadamente adiantada porque a minha sexta-feira vai ser punk (dia de consulta médica é dia de consulta médica e nada mais, os médicos sofrem dessa abominável superioridade profissional, têm essa empáfia, mania de grandeza, sei lá, acham-se no sagrado direito de engolir a manhã e a tarde do sujeito, feito se o sujeito vivesse de brisa e não tivesse que, assim como ele, trabalhar!), o assunto da historinha aportou, de mala e cuia, impedindo qualquer outro de chegar. Amanheci com o rags na cabeça, cantarolando Noel. Rag é trapo, molambo, farrapo, pano roto, “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?” . Do amor, da poesia, do cigarro e do álcool, das madrugadas insones brotou a tísica, no peito de Noel. Sem a tuberculose, Noel Rosa teria vivido bastante, suponho. O gênio e a tuberculose, entretanto, fizeram de Noel o imortal que ele é, coisas do mundo, minha nêga. Com que roupa foi composta em casa, a sua mãe e a sua esposa mantiveram o doente gravíssimo no quarto, enquanto sua mente fabulosa saía a saracotear pela noite boêmia da minha gloriosa cidade de São Sebastião, saravá! Arrepiante com farofa, tenho dito.
Quem salta de rags para riches, despede-se da miséria, mergulha na opulência. Quem salta de rags para riches, segue do anonimato para a famigerada fama, com mais de mil, desembestado, ansioso por deletar da memória o trajeto de volta às humildes origens, Deus nos livre de andar para trás, caranguejo, Deus nos livre. Retornando a Bangu, entretanto, minha senhora, ninguém se perde. Segunda-feira próxima é dia de celebração. O novo diretor-geral, legitima e democraticamente eleito em berço esplêndido, pela esmagadora maioria da comunidade escolar, em pleito caracterizado por acirrado embate entre adequados e equivocados conceitos de gestão, de política de desenvolvimento educacional, de política pura e adulterada, de liberdade, sobretudo - briga boa e bonita da qual fiz parte, com o coração transbordante de orgulho funcionário público e civil - onde é que eu estava?, ah, sim: o novo diretor será, finalmente, empossado. Por infeliz coincidência, segunda-feira próxima é o dia do meu teste vestibular, noutras palavras, o doutor pretende estimular adoidado o labirinto de labirintos dentro da minha cabeça oca, cutucar até eu ficar vinte e quatro horas tonta de cair, de matar de chapéu, quem submeteu-se à porra do exame, já confirmou, para meu desassossego. Perder a posse não quero, nem que a constipada vaca corize e espirre pra danar. Minha grande amiga Evelyn prometeu levar, na bolsa, uma fita dupla face, para a eventual necessidade de prender o robusto pião na pilastra, rá rá rá, não desejo nem ver a cor de quem me segura, sei que é com Anderson Cortines que vou para a festa, ainda que a tísica vaca escarre e tussa. Não é porque o nosso bebê Johnson’s dispõe de sobre-humana força interior, de física inteligência e de faceira alegria para desviar a órbita do planeta, se lhe aprouver, não mesmo. Vou por respeitar e admirar demais a sua doce, mansa e generosa resistência aos obstáculos do acidentado percurso, inabalável resistência ao que passou e ao que não passará. Vou pela sua nobre intenção de proteger a nossa casa, meio caminho andado, vamos combinar. Vou ao quente sabor dos ventos e da ternura. Com que roupa? Vou vestida dele, por que não?  Surradíssimos jeans e camisa polo preta. Com frango, farofa e a vitrolinha.  Não encontro maneira mais afetuosa de lhe render minha modesta e sincera homenagem. Parabéns, querido amigo. Boa sorte.

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

Thiago de Mello


Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade. 
Agora vale a vida 
e, de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra, 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV 
Fica decretado que o homem 
não precisará nunca mais 
duvidar do homem. 
Que o homem confiará no homem 
como a palmeira confia no vento, 
como o vento confia no ar, 
como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único
O homem confiará no homem 
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V 
Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio, 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos, 
a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII 
Por decreto irrevogável, fica estabelecido 
o reinado permanente da justiça e da claridade, 
e a alegria será uma bandeira generosa 
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia 
tenha, no homem, o sinal de seu suor. 
Mas que, sobretudo, tenha 
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa, 
qualquer hora da vida, 
uso do traje branco. 

Artigo XI 
Fica decretado, por definição, 
que o homem é um animal que ama 
e que por isso é belo, 
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado 
nem proibido, 
tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único
Só uma coisa fica proibida: 
amar sem amor. 

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro 
não poderá nunca mais comprar 
o sol das manhãs vindouras. 
Expulso do grande baú do medo, 
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
para defender o direito de cantar 
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante, 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre 
o coração do homem.
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Curta e grossa

A historinha em cima da hora apertada, dentro da manhã luminosa e escassa de vagareza, vai ser mesmo curta e grossa. Se avexe não, minha senhora. Tire um cochilo na rede, que a minha vida é explicar, nos mais mínimos detalhes, os miúdos e os avantajados, o que ninguém pediu para conhecer, com a conversa mole de hoje não há de ser diferente. Esclarecimento é o meu sobrenome e a minha especialidade. Ser compreendida são outros mil e quinhentos. Minha felicidade é a íntima e pessoal certeza absoluta de que meus alunos dividem-se em duas muito específicas e valorosas categorias, a saber: a primeira metade já aprendeu um bom bocado de Inglês, mais do que eu demais, coisas do mundo, minha nêga. A segunda metade vai aprender Inglês a rodo, cedo ou tarde, apesar de mim, outras coisas do mundo, minha nêga. Existe maior tranquilidade no coração do espírito de um docente? A paz que a senhora procurava, fale a verdade. Morro de explicar, sem querer e querendo, para o circunstancial sossego de minhas próprias profundas inconsistências d’alma, deve ser. Meu dia encolheu consideravelmente, é muito isso. A pasmaceira da sexta-feira jaz pretérita, o que era doce acabou-se, o pau agora é para comer sabão e para saber que sabão não se come. Desde que eu me entendo por professora (faz uma era...), é assim, desejo passar de fino, escapulir para o olho da rua – a estufa da palavra, sem dar um pio de pinto, fantasiada de árvore, paralisada feito um dois de paus, penso que as favas estão contadas. Aí, estripulia do diabo, o diabo vem, e cutuca. Uma extravagância à-toa, um solto som, danou-se tudo. O demônio acena, minha consciência consente. Desisto de rejeitar serviço porque me lembro de Seu Biu – “minha religião é o trabalho”. Me lembro da jura feita na noite de gala da formatura, trinta anos atrás, aquela cantilena besta com farofa, blá blá blá – tatuagem incrustada no miolo - odor de cigarro vagabundo, até hoje entranhado nos grisalhos fios do meu cabelo escovado. A brincadeira, doravante, inclui aulas à mancheia, de segunda à sexta-feira, sábado aqui e sábado acolá, cipó de aroeira no lombo da que vos dirige o verbo, salvem a professorinha. Esfolo os prejudicados joelhos, mas não me queixo. Do jeito que a vida quer, é desse jeito.
Viciadíssima em diários virtuais alheios anos-luz mais interessantes que o meu, este espaço fubeca e fajuto (na natureza, tudo se copia), tomei um choque essa semana, fiquei desalentada. Thelma escreveu: este blog termina aqui. Justo quando me apaixonei pelo delicioso blog de Thelma, que nunca vi mais gorda, Thelma me esculachou: este blog termina aqui! Uma lixa, um papel de embrulhar prego. Este blog termina aqui? E o nosso vínculo? E o nosso compromisso? Perdi meu chão de estrelas. Ainda ontem, depois do trampo violento, partilhei pizza e amenidades com os amigos da escola, que o bom da brincadeira reside no perder e fazer amigos, insano movimento cata-vento da vida. Giseli, a esposa de Flávio, me falou sobre uma aluna, uma moça de quem Gi esqueceu o nome, ali no fecundo momento da conversa fiada, não captei direito a mensagem, sou muito ruim de entender, minha nêga. Parece que a moça estuda com ela não sei onde, não sei como foi, sei que a tal moça é uma discreta leitora do meu blog, uma jovem leitora anônima, uma doce criatura entre as doces criaturas da terra, uma pessoa comum, acompanhando os sucessivos devaneios cotidianos bem ou mal registrados aqui, sabe-se lá por quê. Olhar curioso de menina-mulher recém-desabrochada. Olhar inquieto que cativei, olhar do qual pretendo cuidar, zelosa feito mamãe lua. Às vezes, mais vezes do que teria preferido, sinto a humanidade de cabeça para baixo, desencontrada de si e do vizinho, tateando, às tontas, na escuridão da solidão do individualismo, fechada em copas, abrindo nesgas esporádicas para um eventual superficial encontro marcado sob a navalha, encontro obtuso, sob o eterno risco da súbita desintegração, no mais tardar amanhã de manhã. Quem puder com o pote da ingratidão, minha senhora, segure a rodilha. Desenlace sem vestígio de culpa, como se um mais um não fosse mais que dois. Não atino na razão pela qual a gente se desvencilha do outro assim, tão desavergonhadamente, tão sem dó e sem piedade, como se a magia do apego, do afeto, da cumplicidade, como se o condão do tempo jamais houvesse estreitado tanto aquele abraço. De que etérea matéria se faz um cristal amigo, espatifado ao mais suave giro da bailarina?  As relações virtuais são relações humanas, minha senhora. Gigabytes de sangue, suor, sorriso e lágrimas. Autossuficiência, no meu precário vocabulário, consiste em lidar direito com a temida bem-aventurada dependência do irmão ("ah, que bom que você veio e você chegou tão linda"...), e sem sofrer ansiedade. Comigo não, violão. "Junte tudo que é seu, seu amor, seus trapinhos, junte tudo que é seu e saia do meu caminho". Vá derreter seus cornos e sua indiferença no quinto dos infernos, Dona Thelmaligna! Vá-se embora e fique por lá, meu bem, refogando tamanha falta de jeito, como lhe convém, no sobrado do tinhoso, que é lugar bastante quente.


Para ela, que reconheceu-se na crônica, decerto. Estamos juntas. Aquele abraço.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Filhos da mãe

“E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil, para mim que esperava os grandes sóis violentos, me sentia tão rico deste dia, e lá se foi secreto, ao serro frio”. Da árvore adiante, avisto o topete... ensopado. It has been raining cats and dogs, desde cedo, no presente imperfeito da sexta-feira alagada. Invejo a sorte grande de Valentim, meu fiel perdigueiro, que nunca inventou essa maluquice de escrever para fora, noutras palavras, a essa hora, o cachorro dos sonhos de qualquer criança – feliz dia de brincar de criança, jovens e menos jovens leitores do meu Brasil varonil! – Valentim desistiu de passear, dorme feliz o sono dos justos, enroscadinho na coberta cinzenta de sete dias sem sabão, não lhe interessando saber quem envernizou a barata, dorme de roncar, de bem consigo, comigo e com Iemanjá rainha, soberana das águas, dorme nos braços da paz. Um filósofo. Um alquimista. O que não tem remédio, remediado está. Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. A minha recomendação para os pais que andam com a mão na beira do chifre, mais perdidos do que um filho da puta no dia das mães, os pais identificados com o crachá de diretoria do aperreio, sem a mínima noção de como orientar seus moleques para o exercício de estar entre os outros moleques do mundo, a minha recomendação para os pais é singela como a canção de ninar: amanhã vai ser outro dia, minha senhora, deixe o seu cachorro guiar.
“As árvores lá fora se meditam. O inverno é quente em mim, que o estou berçando”. Sem a possibilidade de colher, no asfalto, a pedra de riscar a lousa da nebulosa manhã (escuridão, já vi pior...), espremo o miolo para escorrer Drummond: “penetra surdamente no reino das palavras”. Da mais íntima palavra. Palavra acesa, que te traduz o coração, o pensamento. Cada vez que conto a história da construção desse conceituado blog líder de audiência no horário nobre, blog bem ou mal criado pela minha conta e risco, para o meu pesar e para o meu contentamento, como tem de ser, cada vez que conto, aumento um ponto. Tanta gente deu palpite, tanta gente se meteu pelo meio com seu bedelho, que findei por perder o fio da meada, não sei direito de quem partiu a ideia, “de mim, de ti... ah, abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória”. Finjo não saber. Fica o dito pelo maldito, prevalece, no frigir dos ovos, a minha ínfima vontade de realizar coisas mais importantes, aliada àquela enorme atávica disposição para o registro em ata da conversa fiada cotidiana, três vivas para a conversa fiada, a tábua de salvação de toda a reles humanidade. Fato é que, ventre livre, sofri cada bem aventurada contração e dei à luz a palavra. Palavra com aroma, cor, sabor e personalidade. De cão. Palavra com temperatura, Chico. Deu-se que meu adorado rebento tomou impulso e decolou, agora é flecha lançada, a palavra pronunciada independe-se e indefende-se, como tem de ser. O DNA da palavra foi levado pelas mãos do acaso para o hemisfério da sombra onde viceja o avesso da integridade e da verdade. Só não me queixo para o bispo porque sou do tamanho da minha boa índole e do meu irrepreensível caráter. Não faz muito tempo, revelei aqui, sobre minha doce natureza, que peço perdão até às pedras do chão, por meu duro e lento caminhar. Nada me é mais caro e precioso do que o sentimento de respeito pelo homem que, diferente, é igual a mim, isso, quem não me conhece, procure, definitivamente, entender. Se lhe extirpassem da cria um rim, minha senhora, para comércio, sua alma sangraria? Seus filhos são seus filhos na sua ilusão, minha senhora. Desejo a seu filho o futuro. A plenitude de ele ser ele e sua unha encravada, sem censura. A liberdade de ele existir e insistir, do jeito que nasceu, com todos os defeitos, trejeitos, traços, tripas, membros, neurônios legitimamente preservados, para cirandar pela roda viva da vida, encardindo a cambraia da saia na lama da tempestade.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Estrangeira

Vinícius de Moraes escreveu uma CRÔNICA, assim mesmo, CRÔNICA, com todas as letras em tamanho GG, da qual jamais teria tomado conhecimento, certeza absoluta fincada a ferro e fogo na minha congênita vagareza para a leitura de tudo, leio pouco e lentissimamente, sou e sempre fui assim, devagar quase parando, meu juízo toda vida pegou no tranco, muito mais releio as historinhas de minha preferência, as do fundo do baú das quinquilharias fundamentais para as minhas modestas alegrias... e opulentas tristezas, muito mais releio que inauguro novos chamegos literários. Releio tanto que decoro, uma doidice. Isso de ler para bem escrever é uma balela para boi da cara preta fazer a sesta, conheço gente que lê de cegar e não salta de um tamborete para redigir uma lista de supermercado, concorda? Tenho para mim que o buraco é muito mais embaixo. Ou não. O gentílimo gigante Bruno, sempre gerando gentileza, é da natureza do gigante Bruno gerar gentileza, Bruno Giga fez a gentileza de me arrumar uma cópia da extraordinária CRÔNICA - O exercício da crônica, datada dos gloriosos idos de 1960 e máquina de escrever. Nela, nosso imenso poeta Vininha, homem devidamente prevenido valendo por cento e vinte e dois, recomenda a produção de crônicas antecipadas, “o ideal para um cronista é ter sempre uma ou duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam... Se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas, estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi”. A senhora deve pensar com seus botões que isso não me diz respeito, a senhora sabe das coisas. Estou virgem donzela da experiência de realizar uma tarefa antes do prazo, ponto pra senhora. Vou lhe revelar meu mais íntimo segredo: eu queria ser cronista. Tem mais: eu queria ser cronista dona de uma majestosa Remington, com pedigree, em 1962. Mais ainda: eu queria essa magia, essa adrenalina. Eu queria mandar minha crônica de táxi, lançá-la ao misterioso mar, no derradeiro instante, feito uma boia salva-vidas, para o desacreditado resgate do náufrago moribundo, para ter “um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.” Vinícius de Moraes, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô, a bênção.
Hoje nem é sexta-feira, muito pelo contrário. Nenhuma múmia se mexeu. Nenhum milagre da ciência aconteceu. Nada de bom. Nada de mau. Hoje somos eu, meus braços, minhas pernas, meu pensamento e minha vontade de partir. Longe de casa, não posso querer ser nada. Saudade nua e crua. Ainda ontem, comecei a farejar-lhe o azedo ao redor de mim, apeou sorrateira, disposta, entretanto, a fazer estrago, justamente na saída da escola pública onde justificamos, eu e Ronaldo, as nossas ausências cívicas, uma vergonha, uma temeridade. Atravessei o portão esbravejando que aquela seria a última vez, a pessoa tem de ajudar (ou atrapalhar) a eleição para prefeito da cidade onde, assim ou assado, a pessoa vive a vida, ora essa. Meu marido não quer transferir seu título para Cabo Frio. Meu marido deseja transferir seu título para Recife, meu bem, você sabe lá o que é isso? Meu marido adotou a minha numerosa e destrambelhada família, a minha cidade, o meu Estado e seus brasões – um amor de história. Consentida. Com sentido. Os pais de Ronaldo estão mortos. A única irmã de Ronaldo mora em Jacarepaguá, na companhia do filho. A única sobrinha, também afilhada, casou-se, acomodou-se por lá, a dez minutos da casa da mãe, e exerce agora o seu principal papel, o de mãe zelosa da pequena Laura, nossa bonequinha. É gente bacana à beça, em seu inconfundível jeito carioca de ser. Carioca faz uma zoada da peste, mas não se entrelaça não. Tratam-nos a pão de ló os da Praça Seca, na palma da mão, desde que sejamos nós a caravana a arrastar o bonde para o Rio de janeiro, para mais uma cordial visita. Minha cunhada esteve aqui uma única vez, e, acreditem, despediu-se desculpando-se por ter vindo, um acontecimento inédito para a minha brejeira nordestinidade.com. Fiquei besta com a cena, de queixo caído. Pernambucano é diferente. Pernambucano se aprochega na manha, certíssimo, porém oferece, para além dos minguados cômodos, a alma escancarada. Pernambucano fisga no visgo do caju, tece a rede de pescar e prende. Minha irmã, Tia Dau, desde que nos mudamos, é pra cima e pra baixo, feito couro de pescoço de peru, isso para não dizer outra coisa, toda hora aparece, parece que vem a pé, da rua de trás, um negócio lindo, impressionante. I just called to say I love you, I just called to say how much I care. No dia internacional da ressaca e da preguiça, para encurtar a conversa sem sal da segunda-feira, Ronaldo, vez por outra, sem constrangimento algum, pega um aeroplano e empina a coruja pras bandas da Veneza brasileira, ele e o anjo da guarda, vão os dois passar férias aconchegados, no bem-bom, infiltrados no clã dos Guimarães de Oliveira (sofre a tua dor, resignadamente...), no colo de Pernambuco, enquanto eu bamboleio a valer na jovem escola fluminense, desatarraxada do chão, esfolando as varizes e as cordas vocais, tonta, desatinada de saudade, contando os anos que faltam para voltar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pescador de ilusões

Valeu a pena. Se meus joelhos não doessem mais, teria chegado mais longe. A caminhada matinal da imaculada sexta-feira, despudoradamente azul, debaixo do morno sol de outubro, eu mais meu parceiro vira-lata, transcorreu a contento. Como tem gente de bem, bem acompanhada de cachorros de bem, nessa magnífica cidade dos sonhos, já reparou? Deve ser porque há pouquíssimas diferenças entre os grandes homens e os cachorrinhos. Alguns homens reduzem essa diferença a nada, a um pé de cobra, são tão bons, meu glorioso São Francisco de Assis, tão notoriamente bons, desinteressadamente bons, compulsivamente bons, bons pra cachorro, o nosso recém-eleito diretor, o camarada Anderson, é um exemplo redondo, ops! I did it again!, troco o amigo pela piada, perdendo qualquer dinheiro, e sem pantim, desde pequena. Quem bem souber viver de rir daquilo que perdeu, meu caro leitor de outrora e de anteontem, este venceu. Tempo haverá para o minucioso relato dos acontecimentos referentes ao pleito, à redentora vitória – esmagadora, emblemática com farofa, à celebração que começou sem hora pra acabar. Uma surrealidade, de fato. Meu coração Lady e o vagabundo guarda em mim o mundo, minha senhora. Da chaga aberta, à superfície de qualquer manhã, não mais que de repente, a flor da palavra, inapelavelmente, brotará, que eu sei. Tempo haverá.
Enquanto passeava com Valentim, olhando os adoráveis cães e suas respectivas donas do mundo, me lembrei de uma coisa no meio do precipício das coisas que, um dia, no susto, aprendi. Valeu a pena. Deve ter sido por conta desse meu chamego ancestral com os ditados: it’s raining cats and dogs, uma expressão bonitinha, a gente diz isso quando a chuva cai pesada, varrendo tudo. Pois, acredite que ri foi de perder o prumo, no meio da rua, imaginando um temporal fora de hora, a penca de pedigrees de todas as estirpes, rodopiando ao sabor do vento, a dondocagem cabofriense histérica, batendo pino, chapinhas encharcadas, a mulherada desabalada, no oco da tempestade, atrás de sua estimação, quanta besteira. Estudei tanta literatura, aqueles poemas ingleses de 1600 e guaraná de rolha, vez por outra era um toró de gato e de cachorro, a origem da expressão é velha como a soberba Inglaterra, os vendavais do passado arrastavam os corpinhos inertes dos bichinhos de rua pela rua, dizem. Criança e cachorro é seis e meia dúzia. Amanheceu ensolarado, é tiro e queda: o sujeito que não pisou em cocô, vai esbarrar num carrinho de bebê, líquido e certo. Outro ditado sensacional é aquele do bebê. Não se trata de retomar o assunto do nosso bebê Johnson’s a lid(b)erar a revolução dos bichos (gente acuada vira bicho), não mesmo. Nem visualizei criaturinhas rosadas e rechonchudas a bailar, em rodopio, sobre a minha cabeça de siri. Do not throw out the baby with the bath water, ei-lo. Esse é do arco da tataravó da soberba Inglaterra, que era alemã. Para quem não gasta seu precioso tempo com a língua do patrão, do not throw out the baby with the bath water é o seguinte: não jogue água fora da bacia. Será? Mentira de quem não perde a piada, rá rá rá. A tradução é não jogue o bebê fora, junto com a água da banheira. Muito medievalmente antigamente, tanto que nem me lembro, os nobres banhavam-se muito raramente, e na mesma água, obedecendo, à risca, a hierarquia: primeiro, o pai e todos os outros homens da casa (vê se pode!), depois, as mulheres e, lá no rabo da gata, a molecada, pobrezinhos. Pela imundície restante na tina, no fim das contas, não duvido um tico que vários inocentes tenham sido lançados morro abaixo, por descuido. É, cidadão, assim ou assado caminha a humanidade. Do not throw out the baby with the bath water, vai a dica para o bem-vindo leitor confortavelmente abancado nesse valoroso alpendre de letrinhas à beira-mar. Leitor que aqueço em meus braços, leitor que acolho em meu desajeitado verso, leitor que desprezo com todas as fibras do ser. Não se distraia tanto. Veja as coisas como elas são. Não descarte a rosa pelo temor de um espinho eventual. Que não lhe escape dos dedos hesitantes o bruto diamante, perdendo-se no fundo do rio enlameado. Não abandone sua mais legítima doce ilusão de menino, em razão de um pesadelo circunstancial. Hoje, preparei minhas mãos de afeto para retornar ao blog, para tocar, de novo, a desnuda face, tão duramente lanhada, desse espaço sagrado, todo meu, criado para o meu usufruto, desfrute e deleite. Foi sofrido. Foi regenerador. Valeu a pena.  Esse mar aberto é meu, meu o abismo, meus os corais mais coloridos, meu o anzol, minha a isca.