Justiça seja feita, o sujeito querendo se aborrecer, ele
invente de acionar a Justiça, a satisfação é garantida. Eu ando até o pescoço
com essa conversa de processo tramitando para cima e para baixo, de audiência
de conciliação só no nome, de amigo advogado que é só advogado bem longe de ser
amigo, de magistrado graduado por correspondência, incompetente até para julgar
uma partida de dedobol, estou, a bem da verdade, que não posso ouvir o telefone
tocar, minha vontade é estourar o aparelho na parede, meu desejo é perpetrar o
extermínio da telefonia móvel e imóvel (uma grandissíssima bosta!) desta nação...
e do planeta inteiro. Há intolerâncias de toda ordem, à lactose, a glúten, ao
cacete a quatro, pois bem, eu sou intolerante a telefone. Agora eu era o rei,
era o bedel e era também juiz, e pela minha lei a gente era obrigada a ser
feliz, comunicando-se via toque, olhar furtivo (ou incisivo), aceno, prosa,
poesia, cafuné... e telepatia. Segunda-feira de fortes emoções ruins, meu
frágil coraçãozinho prefere, por ora, não desfiar o assunto, tudo demais é
veneno, mais uma pitada da rançosa palavra, e afundaremos os catorze, eu e vocês,
meus treze devotados leitores de fé, nesse mar de lamúria, irremediavelmente
intoxicados de raiva, rancor e revolta, indago-lhes, adrede,... para quê?
Helena, mulher, não vale a pena. Deixa a poeira assentar, quem sabe a gente
conversa. Eu acredito em dois unguentos milagrosos para as dores da humanidade:
falar e calar. O segredo é o indivíduo saber direitinho o que aplicar,
resolvido esse impasse, o mais é questão de hora e lugar.
Meu marido decidiu fazer um extra no trabalho, sob a
alegação da mais absoluta pindaíba, diz que é muita despesa, que precisa arrumar
as contas, esse idioma dele eu domino perfeitamente, sou de uma fluência de dar
gosto, liseu é minha especialidade, desde criancinha. Sempre fui rica mesmo é
de criatividade para driblar as vacas magras, esquálidas, anoréxicas. Minha
família tinha uma situação financeira muito boa, até eu nascer, acreditam? Foi
a maré virar, pimba, na antessala da menopausa, minha mãe, assanhada como o
diabo, ficou, de súbito, irremediavelmente fértil aos 43 anos, deu-se a merda,
acometeu-lhe uma gravidez de alto risco, indesejada, adivinhem quem
precipitou-se da escuridão do prejudicado ventre para a confusão da vida, antes
tarde do que nunca, e para ser capricorniana com ascendente em libra, ainda por
cima? É assunto para outra crônica, haja vista os desdobramentos do desmantelo.
Contam-se histórias incríveis sobre a minha infância de privações, já cansei dos sinceros elogios ao meu comportamento de menina tão madura para a tenra idade, diante
dos brinquedos que só podia olhar, aprendi muito cedo a ceder, conceder,
renunciar, esquecer. Tia Luzia, a irmã solteira de mainha, morava conosco, era
doida por mim, passeávamos a valer no parquinho da praça, ela voltava encantada
com a minha boa educação, Adriana não quer nada, não pede nada, sequer uma maçã
do amor. Mentira. Eu queria céus e terras. Um belo dia, quis tanto, mais tanto,
comer um pedaço de galinha, que sucumbi ao desejo incontrolável, ousei pedir,
nem sei como. Tia Luzia compadeceu-se, ficou arrasada, sacudiu a poeira, deu
seu jeito: armou uma arapuca no quintal, ficou na entoca, tocaiou o artefato
maior tempão. Conseguiu, por fim, pescar um pombo, depenou o bicho, temperou,
guisou, foi a conta pela receita: regalei-me, extasiada, lambendo os dedos e os
beiços. Há momentos que atravessam as muralhas do tempo e nos alcançam adiante, muito além da dor, a memória de um prazer assim, extemporâneo, eterno. Tia Luzia me livrou de ser para sempre
triste, uma coisa espetacular. Quem quer me agradar, lá em Recife, conhece o
segredo, prepara com carinho uma suculenta galinha guisada, ao molho pardo, de
preferência, e me convida para o almoço especial. O suficiente para eu virar
criança esperança. O mesmíssimo quintal do cativeiro de pombos abrigava um
frondoso pé de fruta-pão, o prato principal de todas as refeições em casa.
Nunca passei fome, pela graça divina. Também nunca me interessou investigar se
a flora brasileira ainda ostenta exemplares da bendita árvore, por aí afora, quem
quiser, pesquise de queimar a pestana, a minha pessoa tomou um tal abuso de
fruta-pão, não posso sentir o cheiro, não consigo encarar um fruta-pão, nem sob
a forma de ilustração, no compêndio de botânica, Deus me livre.
A minha nêga me pediu um vestido novo e colorido pra
comemorar, eu disse: finja que não está descalça, dance alguma valsa, quero ser
seu par. Despossuída de posses, sigo bailando conforme a música. Penso que
nasci, cresci e vou morrer nessa pescaria, numa soma que jamais aumentou nem
diminuiu, jamais mudará: 3. Se não pescar pela manhã, pescarei meus três peixes à
tarde. Pescando um peixe pela manhã, à tarde pescarei mais dois. Dois pela
manhã, um à tarde. Os três pela manhã... e a tarde para ver o mar. É a parte
que me cabe nesse latifúndio, uma indecência eu me queixar. Cada um vale o que
tem, de bens, eu tenho o bem de amar.
kkkkkkkkk...Tia, dei boa risadas!! Rica de humor tb!! Ahh, e pq nao, de amor?!:) Beijos em todos! =)
ResponderExcluirPutz...muito boa !!! Tá vendo aí porque fui parar numa sala de aula e não no tribunal ??? Não tenho paciência, estômago e nem cara de pau pra isso...iria enfartar antes até do que os meus clientes. Bjo.
ResponderExcluirAdorei a passagem sobre fruta pão! Foi Hilário!
ResponderExcluirAdorei o blog, virei leitor assíduo.
-Felipe
Ronaldo disse: Muito bom, é bem você mesmo. Amo.
ResponderExcluirAssim que comecei a ler sobre a sua infancia, pensei logo: “vou contar a história do pombo de tia Lula no comentário“ kkkkkkkk
ResponderExcluirParece que tô vendo tia Lula contando...
Mainha fala tbm que vc andava, sem reclamar, do centro do Recife até o Nossa Senhora do Carmo p estudar.
Eu adoro essas historias!
Tem gente que se enxerga tão superior, né?
Outro dia senti saudades dos domingos que tia Dorinha passava lá em casa depois de vender as tapiocas no mercado. Eu morria de rir com as coisas que ela contava e as vezes pedia p repetir, mas eram historias tristes...
Essa família ensina muito para quem está disposto a ser gente. A gente tem uma igreja em casa e fica procurando oração na rua. Minha humilde opinião.
Bjs tia!
Manu
P.s desculpe se estiver desconfigurado, teclado do celular uó!:p
Tinha uma história de vovó Rita e tia Lula. Elas queriam ir p uma festa, mas só tinha um par de sapato. Elas foram p festa sabe como? Amarraram gaze no dedão do pé e passaram mercúrio. Cada uma com um par do sapato e o outro pé “dodoi“ e foram p festa. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirÉ muita união, amor e arte. ;)
Cada uma com um pé e não com um par do sapato! Affff bicha uó! o.O
ResponderExcluirAinda bem que está "anônimo" kkkkkkkkkkkkkkkkkk
bjs bjs