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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Tenda dos milagres

Estou de volta pro meu aconchego, trazendo, na mala, bastante saudade. Achava essa música muito da linda, depois tomei um abuso, que só vendo. Não podia ouvir Dominguinhos, a carinha mais deslavada, soltando aquela vozinha açucarada, no horário de propaganda política do safado do Joaquim Francisco, PFLista, PSDBista, cria de Arenista dos infernos, que que é isso, companheiro??,  lá na minha terra, isso em mil novecentos e guaraná de rolha, a campanha era para governador do meu glorioso Estado – o Leão do Norte, me lembro como se fosse ontem. Troquei de mal com Deus, com Alceu Valença, com Dominguinhos – artista direitista enviesado na minha estrábica mira, eu ficava fula da vida, uma besteira com pedigree, hoje canso de saber. Basta um dia atrás do outro, o intervalo de uma noite parda, o tapume do palanque vira um edema só, a casa da mãe Joana, vai adensando, dilatando o taco, acomoda rato, gato, cachorro e papagaio perneta, a política é a arte do possível, uma lástima. De volta pro aconchego, tadinha, não tem nada com a política, sobrevive de doçura, de ternura, de pura beleza, me alegro na hora de regressar, parece que vou mergulhar na felicidade sem fim, óbvio ululante que fiz as pazes com ela. A bem da verdade, a senhora bem que se embaraça no passo, pressinto, desde a primeira palavra escrevinhada. O ninho de passarinho, afinal, é carioca ou é pernambucano? É a estrada, minha amiga, é o meu lentíssimo caminhar. A tenda dos milagres estende a lona puída sobre o céu do meu destino insensato, here, there, any and everywhere. Prossigo, obstinada, intransigente, no encalço do apreço, farejo o coração de qualquer um, lançando laço, caçando tempo e espaço para o acolhedor abraço. Quando estou nos braços teus, sinto a vida descansar, quando estás nos braços meus, sinto o mundo bocejar... Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu, mais o braseiro mambembe das fibras do meu regaço flamejante, assim seja.
Recife continua escandalosamente glamorosa, a incontestável soberana do frevo e do maracatu, de Jaboatão dos Guararapes até Olinda, passando por baixo de todas as pontes vestidas de gala, arrasou na indumentária de fim de ano. As luzes do Recife, dessa vez, são espelhos d’água, refletem a apaziguadora claridade sobre o tapete seda dos rios, ornamentam as esplendorosas tiaras suspensas sobre as corredeiras do Capibaribe e do Beberibe, a Duarte Coelho, a Maurício de Nassau, a Princesa Isabel, a Buarque de Macedo, a Ponte Velha da minha infância, trajeto obrigatório de volta para Candeias, as imponentes estruturas de ferro ancestral incandescente, tão familiares, súbito inéditas, todas eternizadas ali, ali para depois de 21 de dezembro, ih, transcendemos a data!, rá rá rá, para depois de mim e de ti, ali para sempre, vergando ao peso da mais bela e nobre História do Brasil. Pela primeira vez, sem entender a razão da delonga, coisas do mundo, minha nêga, fiz o passeio do Catamarã, aquele barco que leva o turista para ver a cidade do ponto-de-vista do peixe, uma travessia inesquecível, um deslumbramento para a retina fatigada. Esse lugar é uma maravilha, mas, como é que faz pra sair da ilha? Pela ponte! Aprenda uma coisa, minha senhora: uma coisa é a senhora macerar seus insípidos dias, corroendo os cascos por cima do solo da ponte, outra coisa é a senhora atravessar o arco-íris da vida, velejando por baixo do abrigo dessa mesmíssima ponte, a senhora pode confiar.
Levei uma mochila, trouxe duas para casa, inúmeros fuxicos cosidos à mão, muito bem escolhidos, dobrados com jeito, guardados com muito gosto, no fundo do saco, fios de tecido de todas as fragrâncias, retalhos de desfiar sem pressa, doce de comer mais demorado, para não enfarar, muito menos empanzinar meus simpáticos leitores, Santa Rita dos Impossíveis me defenda do inconveniente, nem pensar. Por falar em impossibilidade, esse dispositivo desengonçado e extravagante, essa engenhoca maluca que, na minha modesta opinião, se não deu pé, vai dar, tudo dependendo do seu grau de intimidade com a esperança, essa destrambelhada. Questão de tempo, questão de fé. Pretendo despedir-me de 2012 com o mesmo riso frouxo, com a mesma irrefreável alegria, que perde o sentido, agoniza, mas não morre, é cedo. O sobrenatural me surpreendeu com um inesperado encontro, uma experiência mítica, uma surrealidade no chão da praça. Na véspera do meu retorno ao Rio, esbarrei numa criatura tão querida, no Shopping Center Recife frango com trocentos mil encarnados dentro, um negócio inacreditável, entrei no Shopping e esbarrei na minha irmã. Somos duas irmãs de sangue, suor, amor e lágrimas, apartadas por um passado de agruras que ficou supurando, fratura exposta, somos pessoas de quem a lâmina da vida não teve compaixão, fatiou as vísceras, a carne nua, já sofremos tanto, nós já sofremos tanto, que atraímo-nos, feito um ímã, do nada florescemos, plenamente, uma diante da outra, simples assim, por conta do acaso de Santa Rita, para uma trégua, um afago, um amoroso abraço, no meio da multidão. Tenho para mim que Jesus Cristo nasceu foi naquele preci(o)so instante. Um brinde à vida, este privilégio absoluto.


Para Lili, minha irmã, pela feliz coincidência.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Valentim's Day

Amanhã é 16 de dezembro, aniversário natalício de Valentim de Oliveira Barroso, meu caçulinha adorado.Três anos de festa em casa, meu cachorro nasceu para fazer a gente feliz, é isso. Impossível esquecer o narigão torcido da minha valorosa ex-professora de canto, ainda entre as minhas relações, rá rá rá, Itália querida, cada vez que declaro ao mar, ao clarão da lua, à terra e às estrelas do meu céu de estrelas, como é grande o meu amor por você, minha salsichinha jabu, jabu de jabuticaba, meu cachorro é afrodescendente, rá rá rá, como eu, a coisa mais linda de se ver e ter. A minha ex-professora de canto é uma flor de pessoa com esse gravíssimo defeito de fábrica, tirando eu, ninguém mais é perfeito, rá rá rá, releve, coração de melão, releve. Agora falando sério, minha senhora, a senhora também, bem que aproximou simetricamente as sobrancelhas, no súbito franzir da testa ultrajada, trejeito que não lhe fica nada harmonioso, a propósito, não faça careta, minha senhora, sou capitã do time dos que preferem bicho a bicho-homem, no mais das vezes, tudo dependendo do apelo da ocasião. Não troco meu cachorro por uma criança pobre, mas nem que a vaca tussa sangue pisado. Meu saquinho arrastando no chão encerado, no que se refere à questão, rá rá rá, do acolhimento das idiossincrasias coletivas e individuais, venho lubrificando tanto a minha tolerância zero, de uns tempos para cá, acomodando, assim, assado e cozinhado, no sofá da minha sala, o ‘uterinamente’ diverso de mim, vive la différence tem limite!, tenho sido tão hímen complacente, que sonho acordada com a manhã da compreensão universal, meu semelhante entenderá, sooner or later, na encarnação vigente ou na próxima, que criança e cachorro são departamentos completamente distintos, apesar das idênticas desproteção e inocência, desproteção e inocência características de ambas as espécies. Meninos e caninos são grãos superiores, convivem recíprocos, profundamente identificados um com o outro, dentro do mesmo patamar mais elevado da existência de animal e gente e pedra e parafuso. Entretanto, ninguém, nunca, jamais, em tempo algum, deixará de amar um cão para amar um filho, assim como é puro e verdadeiro que o sujeito, fazendo bom uso das atribuições da própria sã consciência, jamais deixará de amar um filho para amar um cão, não se trata de excluir, nem de substituir, digníssimo leitor, a sua colher não pode azedar o pirão de amor do outro, não interfira na decisão de amor do outro, a particular decisão do quê, de quem, de onde, de quando, de como e do quanto amar, que um cristão possa tomar na vida. É uma lição tão simples, que embasbaca: abrangei, multiplicai. Percebe? Ou precisa que eu desenhe?
Houve um momento, na minha difícil batalha para melhorar a voz, nem pense que cantar é um mar de rosas, cantar direito exige exercício, disciplina, é punk, tanto que pelejo faz uma era, estou é longe ainda de aprender, sigo cantando errado porque tenho de estar envolvida com um atividade de que goste tanto quanto gosto de ensinar, para o dia do lenço branco, flor de ir embora é uma flor que se alimenta do que a gente chora, já esteve tão longe a hora da despedida da sala de aula, por incrível que pareça, cochilei no recreio, suponho, esse adeus, de repente, acompanha todos os meus hesitantes passos agora, não sei mais mentir, qualquer extrema alegria ocasional, e são muitas, praticamente diárias, admito, na minha profissão, qualquer entusiasmo é sobrepujado pelo desejo intenso de parar. Conto com a sorte de contar com alunos fabulosos, sensíveis a ponto de perdoar a exaustão da professorinha, são tão parceiros, incansáveis colaboradores, da senhora duvidar, minha senhora, da senhora duvidar. Meus vinte e seis anos de dedicação exclusiva à bela causa, acabaram comigo, às vezes sinto que exagerei na dose, falta gás para fechar o ciclo com alguma possibilidade de medalha, uma pena.
Houve um momento em que não dispúnhamos de espaço físico para o canto. Itália ficou sem teto, tadinha. Espaço físico é feito hemorragia de sangue? Sei lá, deixa como está. Sugeri que os encontros semanais acontecessem na minha casa, fiquei contente de oferecer meu modesto lar para o aconchego da música, sou devota de Nossa Senhora, de São Francisco de Assis... e do violão. Animada com farofa, pinto no lixo, expliquei para a minha ex-professora que Valentim era muito novo ainda, que a veterinária tinha me orientado bem certinho sobre como uma visita deveria se comportar com ele, aproveito o ensejo para vender esse peixe, se a senhora precisa de uma veterinária com pedigree, anote aí, o nome dela é Érica, Drª Érica Toledo, pode confiar. Quase escrevo uma cartilha, de tanto que expliquei, minha senhora: quando entrar, Itália, não encare o cão, deixe que ele vai latir até cansar, não faça gracinha, não chame a atenção dele, faça de conta que ele não existe, não chegue muito perto de mim, ele pode achar que é uma ameaça, pode avançar, não tem mistério, Itália, é chegar, ignorá-lo, a gente tem aula numa boa, ele vai se acostumar com você, não vai haver problema, logo, logo, vocês vão ficar amigos, você vai ver. Valentim precisava de indiferença, quanta nobreza, Itália não viu. Nem Itália é indiferente a cachorro, a senhora veja bem. O discurso não surtiu o efeito esperado: “Adriana, querida, não irei porque você está trocando as bolas. Seu cachorro precisa ser adestrado, eu não”. Cerveja o que a vida é. De tudo se faz crônica. E canção.

Para você, Valentim do meu coração.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Gols de placa

Ai de mim, se começo a não achar mais graça... Ano passado, em dezembro, escrevi uma historinha fosca, sem muita projeção, para meia dúzia mais dois gatos pingados, chama-se Rebento a cria natalina de 2011, um textículo acanhado, coitadinho, baços olhinhos baixos, dedinho timorato da prosa de que tanto gosto, a senhora interessando-se, não faça cerimônia, sinta-se na varanda da sua sogra, que é feito mamãe para a senhora, rá rá rá, use e abuse, vai lhe custar três minutos do já esgarçado tempo, se muito, e, repare bem, absolutamente nenhum tostão, é dezembro, mas é grátis, a senhora pode confiar. Dezembro é fogo na roupa... velha. Trajes inéditos, depilação de verão, limpeza de pele, esteticista, salão de beleza, compras desenfreadas (todo mundo tem dinheiro, menos eu...), trocas equivocadas, sempre pelo artigo ainda menos desejado, a gente nunca acerta, novos e reprisados amigos e inimigos ocultos e declaradíssimos, o megafone na praça: Amo tu, tatu! Te odeio inteira, vadia! Parto para cima, esmago esse teu miolo mole de minhoca com tosse, eu mais meu top rolo compressor quatro por quatro! E as confraternizações fêmeas férteis, então? Todo dia nasce a caçulinha, impressionante! A São Silvestre arranca, acelerada, é da minha esquina, ai ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde até que arde, yells the psychotic White Rabbit daquele filminho enjoado. A festa do trabalho, a festa do trabalho do marido, a festa da igreja (para quem ergueu seu templo fora de si), a festa da hidroginástica, a festa da padaria, a do condomínio... na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Meus oito leitores do ano passado, desocupados em edição extraordinária, que são uma categoria de gente muito competente e labradora, assaz atuante no mercado, nesse mês de pouca séria labuta e de muito faz-de-conta - ninguém me garanta que inaugura grandes empreendimentos aos quarenta e quatro do segundo tempo de dezembro, que é mentira que lorota boa – meus compenetrados, atarefadíssimos oito leitores perdigueiros, desde o ano passado, estando por aí, de bobeira, pela cidade do sol, engatem a ré só um tiquinho, releiam Rebento, aposto que não estão lembrados da croniquinha fraquinha de feição, pobrezinha de atrativo, um flashback modestamente indicado por mim, para o momento, convém recuar sem susto, e conferir.  
A questão é primeira série primária, I’m not in the mood for compassion, simples assim. Meu peito sofre, desapontado, estou chateada com farofa, nada me entristece mais que a premiação do mau caratismo ululante de que me cerco, mãos e pés atados, não tenho escapatória, isso é o tipo da coisa que mexe com as vísceras do contribuinte, contamina o sangue bom da pessoa, dá vontade de puxar a cordinha e saltar no próximo ponto, sinceramente. Curioso é que perdi a voz, ando afônica por opção, sobreveio-me um abatimento, uma catatonia, sei lá, hoje, para a senhora fazer uma ideia aproximada, deixei o trem da memória recente descarrilar, que se dane, desgovernado de más lembranças, fosso adentro, silêncio, por favor, escolho a palavra rouca, sem ruído, não quero mais piar um pio de pinto, não acho mais um alfinete a respeito de coisa alguma, ponto final, ando deveras preocupada com minha flor da pele, preciso higienizar e tratar as perebinhas íntimas e pessoais, deixar esse barco correr, sem tanta interferência, quem se importa? Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto, só por malandragem. O malandro não sabe, entretanto. Decidi privilegiar dois assuntos maneiros e aderentes, emplastro no meu juízo, acontecimentos institucionais, dignos de publicação no site da escola e nos jornais de maior circulação do país, no meu ponto-de-vista, ai de mim, se começo a não achar mais graça.
Eu e minha parceira de todas as horas, Cibellita amiga daqui até a eternidade, fomos convidadas a participar, essa semana, sob a batuta do colega Maurecir, de um evento organizado pelos alunos do grêmio, salvo engano, um show de talentos, um intervalo poético-musical no meio do caminho das abomináveis avaliações de recuperação, um coquetel de cantoria para desopilar o fígado; colorido, perfumado encontro do verbo com o som e com o riso, desses encontros que integram, sem o distraído sequer dar fé, os mais sensíveis e mansos de coração, os bobos da corte iffeana, fiquei bastante emocionada, feliz por sermos, eu e minha parceira de todas as horas, mais uma vez, convocadas para o samba, justamente quando o tom da conversa envolve amor e arte, beleza e alegria. Improvisamos no requinte, ficou bacana. Os meninos têm extraordinárias habilidades, além do destemor característico dos hormônios em fúria. Parabéns, moçada. Nossa instituição abriga grandes, múltiplos artistas, ninguém segura esses bebês. Meu receio é despertar sozinha um belo dia, sem amanhã de manhã que me valha, Cibelle longe daqui, eu completamente estrangeira de alguém que fale a minha língua enrolada.
Se começo a não achar mais graça, assisto a uma etapa do torneio brasileiro de dedobol, o risível bálsamo das minhas horas de pesado trampo a seco, sem bisnaga de vaselina. Muito comentou-se acerca dessa extraordinária modalidade esportiva indolor e inodora, que não deforma, nem solta as tiras, pelo contrário, traz diversão só, pura zoação e providencial alívio laboral, o primitivo artefato de fazer e de conservar amigos, não me recordo de registro escrito, aqui no blog, dos efeitos analgésicos e cicatrizantes dessa oitava maravilha da terra, sobre a minha falta de culhão para os pepinos do dia-a-dia, é a chateação recomeçar, proponho uma partidinha ligeira, para desanuviar a cabeça, para a energia da sala dos professores mudar. Gosto do esporte, mas não pratico. Prefiro apreciar os disputadíssimos embates, engasgar de tanto rir, escutando a narrativa do gigante Bruno radialista, uma figura inoxidável esse menino graúdo, o juiz ergue o braço, apooooonta para o centro do campo, final de jogo, a equipe da ‘Bicicreta na Cicrovia’ deixa o gramado, soturna, cabisbaixa, sorumbática, eu diria, a fiel torcida ‘Cacareca’ vai à loucuuuura, delííííírio na arquibancada... Dedobol é invenção de Bruno, aposto. Se não é, podia ser, borbulhando por dentro do gigante Bruno, a inteligência, a paixão, a imaginação e a indignação equivalem-se, incontestavelmente buliçosas, aguerridas, brilhantes, apesar de todos os pesares. Lamento por vocês, caríssimos fuchique addicts, que, a essa altura do baile, perguntam-se de que diabos ela está falando? Um caixotinho rústico, fileiras de pregos fincados, uma moeda pelota de cinco centavos, dedos ágeis de marmanjos barbados, duas dúzias de craques, no núcleo do cáqui tapete cor-de-rosa - futebol, sua tradição e glória - duelo de titãs costurando o campo de madeira... e a Copa do Mundo, na Baía Formosa, em plena segunda-feira. Meu receio é despertar sozinha um belo dia, sem amanhã de manhã de final de campeonato que me resgate, Bruno e demais atletas alhures, longe daqui, meu olhar forasteiro, fatigado, vazado de fitar o contorno do nada.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Certas esperanças

Compartilho a esplêndida crônica natalina de Sérgio Porto, o Ponte Preta, pois é exatamente o que lhes ofertaria, aos treze dias de dezembro de 2012, dispusesse eu de tamanho talento para escrever poesia dentro da prosa. Desejo ao amigo leitor que nos reencontremos bem e em paz, no ano que se aproxima, isso sim, é humano e acalentador. Ao reencontro! Boas Festas. Grande beijo.

É preciso — é mais do que preciso, é forçoso — dar boas festas, trocar embrulhinhos, querer mais intensamente, oferecer com mais prodigalidade, manter o sorriso e, acima de tudo, esquecer tristezas e saudades.

Façamos um supremo esforço para lembrar e sermos lembrados, porque assim manda a tradição e é difícil esquecer a tradição. Enviemos cartões e telegramas de felicitações àqueles que amamos e também àqueles que — sabemos perfeitamente — não gostam da gente. O Correio, nesta época do ano, finge-se de eficiente e já lá tem prontos impressos para que desejemos coisas boas aos outros, nivelando a todos em nossos augúrios.

Depois de abraçar e ser abraçado, desejar sincera e indiferentemente, embrulhar e desembrulhar presentes, cada um poderá fazer votos a si mesmo, desejar para si o que bem entender. Subindo na escala das idades, este sonhou todo o mês com um trenzinho elétrico, aquele com uma bicicleta (com farol e tudo), o outro certa moça, mais além um quarto sonhador esteve a remoer a idéia de ser ministro e o rico... bem, o rico só pensa em ser mais rico. O rico detesta amistosamente os ministros, já não tem olhos para a graça da moça, pernas para pedalar uma bicicleta e, muito menos, tempo para brincar com um trenzinho.

Dos planos de cada um, pouquíssimos serão transformados em realidade. Alguns hão de abandoná-los por desleixo e a maioria, mal o ano de 56 começar, não pensará mais nele, por pura desesperança. O melhor, portanto, é não fazer planos. Desejar somente, posto que isso sim, é humano e acalentador.

De minha parte, estou disposto a esquecer todas as passadas amarguras, tudo que o destino me arranjou de ruim neste ano que finda. Ficarei somente com as lembranças do que me foi grato e me foi bom.

No mais, desejarei ficar como estou porque, se não é o que há de melhor, também não é tão ruim assim e, tudo somado, ficaram gratas alegrias. Que Deus me proporcione as coisas que sempre me foram gratas e que — Ele sabe — não chegam a fazer de mim um ambicioso.

Que não me falte aquele almoço honesto dos sábados (único almoço comível na semana), com aquele feijão que só a negra Almira sabe fazer; que não me falte o arroz e a cerveja — é muito importante a cerveja, meu Deus! —, como é importante manter em dia o ordenado da Almira.

Se não me for dado comparecer às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono. 
E para os pequenos gostos pessoais, que me reste sensibilidade bastante para entretê-los. Ai de mim se começo a não achar mais graça nos pequenos gostos pessoais. Que o perfume do sabonete, no banho matinal, seja sempre violeta; que haja um cigarro forte para depois do café; uma camisa limpa para vestir; um terno que pode não ser novo, mas que também não esteja amarrotado. Uma vez ou outra, acredito que não me fará mal um filme da Lollobrigida, nem um uísque com gelo ou — digamos — uma valsa.

Nada de coisas impossíveis para que a vida possa ser mais bem vivida. Apenas uma praia para janeiro, uma fantasia para fevereiro, um conhaque para junho, um livro para agosto e as mesmas vontades para dezembro.

No mais, continuarei a manter certas esperanças inconfessáveis, porém passíveis — e quanto — de acontecerem.

domingo, 9 de dezembro de 2012

A loba da estepe

Baú aberto não protege tesouro. Não é máxima de Dona Rita, minha senhora, o velho ditado, entretanto, manufatura todas as peças originais de fábrica para sê-lo. Mainha preferia aquele do mosquito zunindo zangado, tão equivocadamente barrado nos salões de festa da boca fechada, um mosquito de tanta categoria, barrado no baile, a senhora se lembra? Em boca fechada, mosquito não entra. A vida, essa destrambelhada com pedigree. A gente precisa de um filho que ensine à gente que a mãe da gente esteve sempre certa, o mesmíssimo filho que vai subsistir, nutrindo-se de pantim, de insubordinação, de rebeldia sem causa, bradando, às quatro quinas deste mundo e dos outros, que a gente ensina tudo errado, até que o amanhã, o que será?, venha surpreendê-lo com o agridoce mistério de cuidar do seu próprio rebento, uma dureza, a vida sempre repete o dever de casa, à vida, essa destrambelhada! Sem herdeiro para fazer um chá e assumir a inadimplência, uma pena, sigo apostando minhas mínimas posses no palpite: é assim mesmo que toca a banda e o espetáculo acontece. Dona Rita só errou quando não me criou na rédea curta, segurando a minha língua de trapo, tirando isso, foi primeiríssima de classe, no peito a reluzente medalha de honra ao mérito de fazer dos guris buchudos, os grandes homens e mulheres que ora, incontinenti, perdem a memória, o viço e a flexibilidade, sem complacência. A senhora calcule aí, a caçula da família sou eu, quase cinquenta anos no origami da cara, a encostada no meu sovaco fez sessenta já, no talo, a mais velha inteirou setenta primaveras e um quebrado para o santo, envelhecemos dignos, os filhos de Rita, em comitiva (acalanto...), na marra, sem subterfúgios e sem consolo.  
Só mudo de assunto por causa das sucessivas encomendas à minha humilde pessoa, não sei o que deu na humanidade, todos desejam reconhecer-se na lata ou nas entrelinhas do meu diário de bordo, tenho três historinhas engatilhadas, apontadas para o coraçãozinho esperançoso de cada requisitante, meu receio é desapontar a galera, perder o fio da espontaneidade característica deste braço de rio da integração nacional, rá rá rá, temo é findar incógnita, hermeticamente lacrada, chorando no leito as pitangas derramadas, com os mansos burros n’água, sem açúcar e sem acesso à passagem secreta para o crivo do respeitável leitor – a indiferença, a censura, a absolvição pretendida, ocasionalmente, negada.  Minha saudosa mãezinha não tinha nada de besta, não mesmo, enxergava além do horizonte, expunha a pamonha fumegante, a gente ainda tateando as espigas para o strip-tease. Curioso como ela zelava por minha boa imagem, apreensiva com meu verbo solto, suscetível, em boca fechada, mosquito não entra. Insisti na falação, deu nisso, agora, desobediente, se arrebente!
Luciana, posta em desassossego, rá rá rá, quer que eu escreva sobre ter quarenta anos, a bichinha está prestes a inaugurar a nova idade, aquieta a periquita, Luciana, quem não fez quarenta, vai fazer, tudo uma questão de tempo passado e presente. Malogro, rá rá rá, juro que esqueci, urge aguardar a ginkco biloba surtir algum efeito. Mentira, Lu. Sei muitíssimo bem a quantas andava a minha dor, a minha alegria, quando virei a loba ali-babá dos quarenta ladrões. Sinceramente, mulher, é um sonho de valsa dissolvendo no céu da boca. Toda mulher é, de fato, uma loba, quando tem quarenta anos, se avexe não, a bronca é safada, os ganhos, infinitamente superiores, são tantas as recompensas da gente ser dona do nariz e do salto alto. Lembro-me de que dispunha de disposição para tudo, do direito até o avesso, passando pela sala de aula e pelos ilusoriamente pacificados complexos dos bares, dos lábios sôfregos, eita!!, do sexo sem nexo. A bem da verdade, enfrentei três violentas crises existenciais, no decorrer desse folhetim barato, a minha nada mole vida. Crises em nada relacionadas à consciência da cinza das horas, hoje sei. Meu primeiro desmoronamento, deu-se quando era menina e fiquei, subitamente, órfã, as mamães postiças, minhas irmãs queridas, combinaram de tomar casa e constituir as próprias famílias, a coisa mais natural de acontecer, saíram do meu alcance, praticamente no mesmo instante, adormeci no calor do ninho, amanheci no sereno, insana e sozinha. Minha intimidade com o pranto vem daí, quem me conhece, sabe, sei chorar choro desatinado, até com o sopro do vento. O segundo abalo sísmico, o mais trágico deles, foi a perda de Seu Biu e de Dona Rita, na minha curva dos trinta, uma mutilação seguida da outra, sem chance da chaga aberta cicatrizar, a minha mãe me pediu perdão por não ser a minha mãe, deu dois suspiros, depois morreu. Desnecessário descrever o sentimento, quem desconhece, um dia vai sofrer, as favas estão contadas. Às vezes, minha nêga, não dá nem para sacudir a poeira, a foice escapole, decepa, prematuramente, pela raiz, o pé da bela flor recém-florida. Da ausência de Cris, o meu amor profundo, nunca mais vou me recuperar, o futuro promete o alívio que não consegue cumprir, cansei de, resignadamente, aguardar. O terceiro baque foi o diagnóstico da artrose generalizada, acompanhada da velha artritezinha rara e complicada, alojada nas articulações do extenso corpo desvalido, na sacro-ilíaca, inclusive, porque eu sou chique, bem, quarenta e cinco dias de impressão da ossatura esfarelando, dor física de endoidecer, dessas que o sujeito sequer desconfia que possa vir a experimentar um dia, por baixo do tapete da pele, dor de querer desistir de ser.
Sinto-a pronta para viver a sua melhor idade, esperar não é saber. Eu acho que o show está recomeçando, sob nova direção, Luciana, a sua. A faca, a goiabada-cascão e o queijo estão sobre a sua mesa. O convidado de honra chegou, no frescor da madrugada, o a(o)caso já lhe apresentou, fez a sala. Fico feliz que você tenha mencionado filho, em um de seus recentes comentários, não cometa o erro crasso de partir daqui sem contribuir com um filho para a roda-viva do mundo, o giro do mundo requer pessoas e mais pessoas, uma nova legião de gente boa, entre elas seu filhinho, da barriga, do coração, da intuição, sei lá, um filho para amar, a quem contar fábulas de amor, um filho para (des)orientar, que, de grandes intenções, o inferno anda superlotado, né, rá rá rá? Ele saberá que você esteve sempre certa, quando ele crescer... e aparecer. Eduardo contribuirá, decerto, com um pequeno e definitivo verso, como faz Ronaldo, meu marido, que Deus escondeu debaixo das longas barbas brancas, toda essa eternidade, graças a Deus, para ser o dono de mim. Um beijo. Boa sorte. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Chocolate com pimenta

A de hoje vai ser expedita e rasteira, do jeito que seu rei mandou dizer, I can feel it in my bones, é isso. Off the top of my head, sem as devidas rotundas reflexões, nada além de uma doce ilusão, como me apraz essa ilusão à-toa, caro leitor incondicional do meu enredo... little useless  food for thought, rá rá rá, enchimento da linguiça que a senhora consome, na quitanda da gorduchinha escrevinhadora, ouvidos moucos da própria voz reverberando no porão do juízo, a senhora lê alto o meu papiro, não minta, a língua estalando, lambendo os beiços, não minta, a senhora pigs out sem uma pataca de culpa, sem dar fé da validade do produto. Venceu, minha senhora, venceu faz é tempo, perdeu a graça, convém munir seu estojo barbie lilás dos sachês de efervescente sal de frutas eno sabendo à maracujá, abacaxi e guaraná, eno guaraná - o top ten dos lançamentos do mercado, também na versão bolinhas dispersíveis, as apaziguadoras das perebas do estômago e do coração partido, um bom chá pra curar azia, um bom chá pra curar essa azia, o que sobrou do céu. Estou de brincadeira com meus meninos de Petróleo e Gás 2, ontem, a gente fiou uma conversinha leve, engraçada, na classe (palavra linda essa, adoro que o meu ofício floresça na ‘classe’, o meu único refúgio), os meninos estudaram um balaio de idioms com nomes de bichinhos e de partes do corpo, um intervalo despretensioso como eu, que ando cansada de tudo, um encontro de olhares e de mãos e de sentimentos do mundo, entreato entre os tempos verbais que aprenderão cedo ou muito mais tarde, por sua conta e risco, sem a minha má influência. Pois muito bem, esses meninos, ninguém duvide, esses meninos, por mais desclassificada que seja a aula vagabunda que o sujeito venda a preço de banana (são muitos os convidados, raríssimos os legitimamente eleitos, por inevitável vocação, para a profissão imaculada), ah, esses meninos vingaram já (Merda, buddies! Break your legs!), ninguém segura esses bebês.
Quando eu não puder pisar mais na avenida, quando as minhas pernas não puderem aguentar levar meu corpo, junto com meu compromisso reafirmado a cada amanhecer, escolherei parar, não estou nessa de pedir arrego, não faz meu tipo, disso os meus superiores, os quais respeito, reverencio demais, podem ter certeza. Anteciparei minha aposentadoria, devo ter direito a isso, lamentando apenas o azar de não contar com articulações saudáveis para seguir adiante, fazendo a coisa simples e certa, ensinar, toda vida, foi meu ar. Por hora, trabalho com prazer, não é possível que haja na escola alguém que pretenda colocar à prova essa pura verdade, prazer, apesar dos pesares, trabalho com honestidade, humildade e afinco, dentro das possibilidades, tirando riso de pedra, que meu organismo caprino libriano constitui-se de carne gorda e de bom humor, careço de siso e de riso para caminhar. Tenho, sob minha responsabilidade, um grupo de taxistas, gente da melhor qualidade, um servicinho extra que me impuseram, insistiram tanto, acedi, cordeirinha obediente, manda quem pode, faço as minhas objeções a esse jeitinho Dilma de ser e de desentender de Educação, enfim, mais doze horas semanais no lombo da professorinha ruim dos joelhos, ‘já que tá dentro, deixe’, é o meu lema. Pois bem, a minha primeira e derradeira experiência com esse programa do governo Dilmaligna, rende frutos dulcíssimos da gente saborear. Quarta-feira passada, dei um susto na galera, marquei uma prova para segunda próxima, o mundo se acabou dentro do “laboratório de idiomas”, rá rá rá, a senhora notou? No meio de uma revisão last minute, que inventei, no fim do segundo tempo, meu aluno menos jovem, rá rá rá, salvou, sem a menor intenção, a minha semana. Seu Estalin falou bem assim: “gente, eu nem sabia que eu tava sabendo tanto!”, dá pra tu? Acabei de me lembrar da frase. Pimenta no fiofó dos outros, Dona Rita que o diga, pimenta no dos outros... é refresco, não me esqueço. Um centímetro, ao menos, dessa historinha mequetrefe, tem de, pelo menos, cheirar a cheiro artificial marrom-bombom de chocolate.
Ontem, troquei figurinha de cromo com a minha mais nova aquisição, rá rá rá, os miúdos de Petróleo e Gás 1, uma belezura de gente, gostei muito deles, uns amores. Quando eu partir, terei feito muito bons amigos por lá, decerto. Mais tarde, absolutamente por acaso, encontrei Cibelle e o namorido, o famoso Zé, um figura inoxidável, adorável, a propósito, ele emparelhado com ela certinho, feito dedo na venta, os ruins de tão bons se reconhecem, Cibelle é uma pérola, não é possível que exista na escola alguém que se atreva a questionar essa mais pura verdade. Lindos os dois, envolvidos, enamorados, perispíritos incandescentes, saca? Prontos, é isso. Longa, açucarada coincidência, regada à cerveja e à alegria de amar e de ser amado, parece que estão se organizando para engravidar, depois que ela debulhar essa porra desse doutorado das trevas, um entrave para qualquer embrião de felicidade. No pequeno dia em que um doutorado produzir um professor, minha senhora, dou uma festa, a despesa será toda minha. Morremos de lacrimar, duas bobonas com pedigree, sob o olhar atravessado dos machos adultos que não choram, rá rá rá, enquanto conversávamos sobre o lance de João e de Karlinha, tão inusitado, tão bacana, tão potente, o amor contente de poder continuar, teu queixo no queixo do teu filho, ad infinitum, assim seja. Tanto que Francisco apressou-se em meter o inocente bedelho, o milagre de ser uma pessoinha e tanto, Francisco franco e forte, quebrando tudo, com a corda toda, a inspiradora imagem do sonho real, num pinguinho de gente, tiquinho de grande homem.

Para Cib e Zé, os brigadeiros da quinta-feira.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Tortura e glória


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Veio a ter um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de algum livrinho, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima com paisagem de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como data natalícia e saudade.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.

Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.

Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Bom, mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguinte ia se repetir com o coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer está precisando que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você não veio, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se formando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Esta devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não entender. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para ela não era essa descoberta. Devia ser a descoberta da filha que tinha. Com certo horror nos espiava: a potência de perversidade de sua filha desconhecida, e a menina em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar agora mesmo As reinações de Narizinho. E para mim disse tudo o que eu jamais poderia aspirar ouvir. “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”

Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse é tudo o que uma pessoa, pequena ou grande, pode querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.

Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

(CLARICE LISPECTOR)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Maracujá de gaveta

Nada de mais, nada de mau, ninguém comigo, além da solidão. A senhora deve estar indagando a seus botões e ao próximo, ‘crônica de segunda-feira?’, não é esse o combinado. De fato. Entretantomente, cá para nós e para a vizinhança faladeira, a senhora arrasta uma asa pelo bloguinho, hein, minha senhora, vai dizer que não gosta de uma fofoca recém-desabrochada, fresquinha feito o café da manhã sem sinal de sol  e sem coisa mais edificante para projetar, operacionalizar e parir, a minha avaliação, na opinião que a senhora nem pediu, aliás, é a seguinte: a pessoa da minha idade dispõe de duas alternativas estruturantes de amadurecimento (eufemismo da porra, rá rá rá!!), uma é a batata frita, a outra, o azulejo, coloquemos assim, tamanho o contraste, duas concepções diametralmente opostas, antônimos vieses de vida. Conheço cinquentões com a fogueira no rabo, umas gentes que parece que tomam uma bolinha e assumem a compleição e a personalidade verdes do incrível Hulk, saem com mais de mil, inventando e realizando coisas extraordinárias, do cabra ficar besta, acomete-lhes aquele comichão desenfreado de co(a)çar novos conhecimentos e considerações sobre a roda da rebinboca da parafuseta, aperfeiçoamentos vários, na sua e noutras áreas nada a ver, o cabra fica é polivalente, rá rá rá, aprofundamentos abissais, a cabeça do sujeito chega fumaça, o corpo carece de acompanhar, a todo custo, essa gente pesquisa o DNA e as novas modalidades de manter a forma de menino, tome-lhe academia, tome-lhe carreira na rua, na chuva, na fazenda, fazia tempo, a propósito, que eu não via o povo correndo tanto por aí, aonde a gente vai, topa com um bravo brasileirinho irmão, trajadinho de Papa-léguas, me lembro logo do desenho animado, vejo a hora o Coiote materializar-se ali mesmo, no calcanhar de Aquiles do atleta maduro com tudo em cima, devorar-lhe voraz a panturrilha, para o sujeito saber o que é bom para tosse. Na curva perigosa dos cinquenta, da qual me aproximo, a contragosto, em ritmo bem diferente, a passos muitíssimo menos largos e frenéticos, acentuadamente limitados e artríticos, deixo claro, quem não malha os bíceps, tríceps e quadríceps, naquele intervalo entre a aula de Inglês Instrumental e o amaldiçoado abstract das trevas, ainda por concluir, está estudando de perder a arruela do juízo, uma temeridade azulejada. Não está vendo? Não estou nessa! Eu quero sossego! A outra gente é a minha praia, a da batata frita do topo do rol das preferências gastronômicas, categoria em que me incluo dos pés ao cerebelo, eu e eles, na marcha da formiga, sem lenço, sem documento e sem vontade, devagar quase parando para um chope na birosca da esquina da segunda-feira com o desnaturado domingo que partiu sem um furtivo aceno, custoso que só, de regressar.
Pra ver encorparem os caules. Pra me ver mais tarde, sabendo o que sabem os velhos. Lá vou eu, eu queria ficar. Argumentarão tratar-se do inferno astral da caprina aniversariante de janeiro, dia letivo ano que vem, quero festa na escola, digo logo. Não se trata disso, o caso é mais sério. Raciocine comigo, caro leitor interlocutor do meu desvario matinal: definitivamente, não estou no meio do caminho, isso é conversa mole para dar de comer à insônia crônica do cara preta, senão, vejamos: batidas na porta da frente, é o tempo. Às vésperas de completar a dura prova dos 47, fiz uma continha de cabeça e percebi, assombrada, que atravessei os primeiros cinquenta por cento já, faz um pedaço de chão, a menos que o Senhor das Esferas, brincando de mau gosto, tenha me reservado um porvir meio ruim das pernas, que jamais desejei, doído, arrastado, de privações as mais humilhantes para um ser humano, e de esquecimento. Meu pai morreu aos oitenta e três anos, lúcido de dar inveja a qualquer fedelho que desfrutasse do privilégio de conhecê-lo, os da minha casa sabem a que me refiro, PRIVILÉGIO maiúsculo, não existe outra palavra. Tanto que, no hospital, minutos antes do acorde final, que não presenciei, nem poderia, Deus soube afastar daquele quarto os que não teriam sobrevivido à cena, ele avisou, “eu vou morrer”, e morreu. Desse dia em diante, aprendi que não preciso de noventa e quatro anos perambulando vida afora, a menos que os pecados sejam tamanhos, que eu mereça o castigo.
Não procuro esmiuçar as cem razões por que o novo semestre acaba de raiar, pras bandas do IFF, onde não estou no momento, pela graça divina, minha preguiça pesa hoje duas vezes mais que meu corpinho roliço, as importantes razões por que o semestre começa sem que haja necessidade de esforço algum, de minha parte, no sentido de recepcioná-lo, com toda a devida pompa, circunstância e sacrifício. Das duas, uma e meia: posso estar completamente vagabunda de carteirinha, senil, caduca dos últimos lançamentos didáticos e metodológicos concernentes ao ensino-aprendizagem da língua do patrão, por pura opção, uma pobre alma desinformada, desatualizada, ultrapassada, obsoleta, dando aula do tempo que Dondon jogava no Andaraí, salvem a jurássica professorinha e os desafortunados aprendizes de um futuro imponderável... e breve. Outra possibilidade, a menos provável, é a da minha pessoa já ter visto de um tudo nesse mundo das letrinhas estrangeiras, sobrando sempre duas palavrinhas esquisitas para tocar gaita, o privilégio maiúsculo de ser muito velha no métier, de haver esfolado adoidado o solado do pé, no terreno quente e arenoso, de preferir, doravante, a maciota corrediça, o recapeamento asfáltico tinindo das boas estradas, fartas de água fresca e de sombra, as quais percorro vendada, de cor.
Para não dizer que meu planejamento acadêmico está puído de tão gasto, se bem que não se mete o bedelho em time vencedor, ora bolas, acrescentei uma proposta de trabalho ao pergaminho, a única, indivisível e multiplicadora, para o desafio que virá: estreitar os laços de afeto com os meus alunos de ontem, de hoje e de amanhã. Procuro ser muito cuidadosa na minha relação com eles, apesar do pavio cada hora mais curto as time goes by, perdão, queridos. Devem queixar-se de mim por aí, nem ligo, é da gênese do aluno reclamar da vida e da gente, rá rá rá, mas amo esses meninos como se cada um fosse um filho que a vida não me deu, simples assim. We’re giving love in a family dose, that’s it. Ainda ontem, conversava com Luana, que não estuda comigo, a propósito, lá no face dos desocupados, rá rá rá, sobre uma coisa engraçada que identifiquei num dos comentários de Evelyn, a respeito de Epígrafe. Evelyn acha que Luana é minha sobrinha, não é bacana isso? Luana me disse que, às vezes, sente como se eu fosse professora dela, não é muito bacana isso? Luana achou que o Francisco da foto era meu sobrinho, isso não é bacana demais? A senhora agora teve a certeza absoluta de que eu estou gagá, mas não me importo um tico. É o meu jeito de perecer sobre a face da terra, ninguém tem de me acompanhar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sabor de aurora

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã. Um belíssimo horizonte. Ninguém, benemérito leitor assim, assado e cozinhado em banho-maria, neste conceituado caldeirão de lorotas, ninguém mesmo, desperdice seu tempo e congênita maledicência, a duvidar desse, ainda que tarde, despertar. Na gente deu o hábito de caminhar entre as trevas, de murmurar entre as pregas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. Pois muito bem, amanheceu o espetáculo. O mais engraçado é que a segunda-feira passada tinha tudo para contribuir com um carregamento extra de agulhas e de alfinetes para a crônica da sexta-feira, antecipada para quinta-feira à noite, tão somente porque o semestre acabou não sei como, de supetão, pensei que não, chegara a bendita hora de ser feliz, para ser infeliz mais adiante, feliz agora, sexta-feira... também. Os dois semestres, o findo e o recém-nascido, rá rá rá, aportaram entrelaçados, se lhe interessa acreditar, acredite, minha senhora, semestrinhos siameses, um grude só, eu, coitadinha, me esvaindo em preguiça e em legítima canseira, pálida imagem tridimensional apática, de dar dó. Para que tanto alvoroço, rapaz? Carrego, nas entranhas, esse arraigado sentimento de defesa do luto primordial pelo que se vai, bálsamo irremediável - uma pausa de mil compassos para ver as meninas - as devidas despedidas com saudade, saúde, sorte, sucesso, conte sempre comigo, a gente se esbarra por aí, gosto das coisinhas nos conformes, começo, meio e até loguinho, tudo direitinho, as antessalas arejadas depois, caiadas da velha, inédita luz, as mangas arregaçadas para o acolhimento do novo. De novo. Hoje, por exemplo, não dei aula aos abençoados de Petróleo II, completamente cega já, de tanto enxergar a razão por que os meninos sequer me reconheceram, ao pé da escada, ansiosos pela confirmação do fuxico do face, apenas: a aprovação, de cabo a rabo (parabéns, pessoas!!!), as avezinhas apressaram-se em lançar-me beijinhos fortuitos, dentro do ar, revoaram para o olho da rua. Entendo demais, meus amores, nesse particular, somos muito iguais.
Comecei a semana com o bode amarrado e não foi na sombra, não mesmo. Aposto que a senhora aposta na mudança do tom da conversa, não mais que de repente, principalmente se a senhora anda aí na pasmaceira, esparramada na sua rede social, tomando conta da minha nada mole vida, fofoca de facebook é fogo, o sujeito perde a repercussão de vista, a fofoqueira senior em questão, sou euzinha com farofa, admito, a culpa é do meu bucho de piaba, fico antecipando assunto de historinha, resumindo os próximos capítulos, rá rá rá, marketing, minha senhora, a senhora sabe. Divulguei, beforehand, o título da crônica, no livrinho virtual de dar a cara à tapa, danou-se a nêga do doce, meus trinta e um seguidores, quarenta e sete desafetos, mais um ou outro leitor neutro circunstancial, todo mundo ficou esperando a Peroba-do-campo, diga aí a mais pura verdade. De fato, estava armada de afiadas unhas e dentes para espetar o traseiro dos irmãos cara-de-pau de plantão, uma categoria sui generis de ser vivente, que circula, livremente, impunemente, nas luxuosas dependências da nossa valorosa instituição de ensino, destilando diárias, homeopáticas poções mágicas de fel. Debaixo dos caracóis dos cabelos, madame, vicejam desvios, fraquezas, vulnerabilidades, somos homens de bem e de mal, disso a senhora nunca se esqueça, orai, pois, joelhos esfolados, orai e vigiai, a ocasião faz o ladrão, mera distração, já era. Desconfio que o tema é recorrente, entretanto, nem é o caso de me aperrear com a postergação de tão pertinente enredo, rá rá rá, pano tem de sobra, tempo haverá, demonstrações inequívocas de cara-de-pausismo mau caráter com pedigree, a torto e a direito, pululam no breu dos becos porcamente iluminados, meu bem, é pau de dar em doido, se brincar, a memória fraca ajudando, acumulo ingredientes para escrever mais de cem.
Trinta dias redondos, eis o que a minha matemática capenga registra na madrugada, partindo da antológica, romântica noite dos gatos pardos da posse do amigo Anderson (e seus Blue Cats, rá rá rá...), ao clarão da lua e dos castiçais (lembram-se?), um mês certinho, de 29 de outubro até aqui. Meu balanço é favorabilíssimo, percebo a escola, nitidamente, descartando a bagagem sem alça, ganhando fôlego, elasticidade, um pé no sonho, outro no caminhar. Almoçamos juntos quarta-feira, jogando conversa fora, Brunão com a gente, estamos cada dia mais ligados, quem suspeitava disso, pode ter certeza, pode até espalhar. Pretendo construir, paulatinamente, tijolo com tijolo num desenho lógico, olhos embotados de cimento e lágrima, uma trilogia vermelha, branca e azul, emparelhada com a de Kieslowski, sobretudo no quesito rara beleza e poesia impactante, rá rá rá, uma profusa fatia do fuchique, pode confiar, num futuro qualquer, na hora exata, uma grossa fatia dedicada ao revolucionário momento presente, que atravessamos na valsa, embolados de chuva, suor e cerveja, frouxos de rir, produzindo História e resultados. Celebro a extraordinária conquista da galera da Licenciatura em Física, soube da ótima avaliação do MEC, fiquei contente pacas, nosso bebê, o pequeno grande físico Simba, merece todos os cumprimentos, uma maravilha esse reconhecimento, justamente no alvorecer da sua gestão. Depois que descobri, da maneira mais torpe e mesquinha, ninguém seja tolo de achar, entretanto, que aquela amputação de texto existiu, pelo contrário, jamais acontecerá, preservo meus relatos a ferro, madeira e concreto, depois que descobri que sou livre para escolher o léxico com que decido sentir e pensar e redigir as páginas da vida, minha filha, posso fazer o diabo com meu pomar de palavras, porque aprendi a correr riscos, digna e serena, e porque sei dar conta do recado, faço bem feitinho, ora bolas, sou, afinal, a proprietária da terra, dos frutos e das sementes.
Conheci uma professora de Macaé, Sandra o nome dela, parece que estava por lá ontem, entrevistando uns colegas da Licenciatura, para sua pesquisa de Mestrado, ou coisa que o valha, uma criatura bacaninha, conversadeira com farofa, querendo fazer perguntas até para o bispo, acho sensacional a criatura ter um pique desses para pesquisar, admirável mundo novo, quisera. Confesso que não trocaria olhares com ela, quem me viu na escola ontem, nem me viu, a montanha de provas, projetinhos e trabalhinhos mis soterrou meus restos mortais, eu, com esse corpinho avantajado, fiquei invisível, submersa na papelada, uma doidice com pedigree, nem tenho mais idade, vamos combinar. Ergui a cabeça porque nasci enxerida, num dado instante, entreouvi uma frase dessa moça, Sandra, guardei o nome porque gostei de escutar: “eu estou ENCANTADA com esse lugar!”. Terra, frutos e sementes dela, sem a minha interferência, deixo claro, Sandra me contou que a nossa escola tem uma energia boa, uma vibração positiva, disse que achou um barato a maneira como nos relacionamos, trabalhando com disposição e alegria, curtiu horrores a leveza e o bom humor da nossa sala dos professores, elogiou demais os colegas com quem teve mais contato, a senhora esperava tal depoimento a essa altura do baile, bela e meiga senhorinha? Nem eu. Quando julguei que houvesse terminado, Sandra ditou o desfecho dessa historinha para mim: “mas eu acho que tem a ver com o jeitão do diretor, não é? Ele me deu essa impressão de competência com camaradagem, tão acessível ele, simpático... esse cara deve ser um grande diretor, não é não?”. Um samba sobre o infinito. Transbordando de flores, a calma dos lagos zangou-se, a rosa dos ventos danou-se, o leito dos rios fartou-se e inundou de água doce a amargura do mar. Avisa em casa, ensina a teus filhos pequenos, querida amiga recente: é correnteza sem represa. Não se pode deter o coletivo movimento, muito menos dobrar um jovem coração de leão, idealista e amoroso. 

Dedico a crônica ao bebê Francisco, filho de João e Karlinha, que saiu do sossego para a confusão do mundo, no dia 30 de novembro. Um belíssimo horizonte para você, querido.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Epígrafe

“Eu não sou eu, nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio”... Numa festa imodesta como esta, vamos homenagear todo aquele que nos empresta sua testa, construindo coisas pra se cantar. Três vivas para Adriana Calcanhotto, xará com pedigree, por tanta emoção, tanto tino, tamanha bem sucedidíssima ousadia, pintando o sete com a nobre palavra de pluma e de chumbo da bichinha complicada com poesia não menos densa, rá rá rá: Mário de Sá-Carneiro, minha senhora, poeta gigante, regulando mais ou menos a estatura do Pessoa, gosto da pessoa no Pessoa e em Sá-Carneiro, sei que a poesia está para a prosa, como o amor está para a amizade. Adriana Calcanhotto, uma mulher do calibre de um trem, linda e lésbica bem resolvida, pela graça divina, fazendo o diabo com a bichinha complicada, noites de redentora loucura, mais um concerto que eu gostaria de haver sorvido, gota a gota, verso a verso, entre vinho e voz.  Eu não sou eu, nem sou o outro. Não sei o que há com as Adrianas, minha senhora, todas as Adrianas da minha estreita, cotidiana convivência, são puro malte, grãos selecionadíssimos, de primeiríssima qualidade, adoráveis fêmeas especiais de luxo, a senhora tire por mim, essa flor de ser vivente, essa criatura tão bacana, desvencilhada das obrigações, assim tão cedo, num passe de mágica, às 11 horas da sexta-feira, acredite, minha senhora, sem um fio de cabelo de culpa, Deus nos livre da culpa, esse mal sem lenitivo. Ocorre que amanheci doida para conversar, estamos cada vez mais íntimos, minha senhora, sem hora para fechar o bar. Tinha consulta com a dentista, a moça do consultório ligou, desmarcando, adiaram meu sofrimento para quinta-feira, achei quase perfeito, sugeri nova consulta em 31 de fevereiro, para o meu calendário, de longe, a data mais adequada, a atendente não achou a menor graça, nem sempre o dia está para pilhéria, vou dizer, eu é que preciso aprender. Acabo de elaborar, muitíssimo a contragosto, deixo claro, três provinhas de recuperação, mandei para a reprografia, com sorte, cruzem os dedinhos, ninguém providencia as cópias, a molecada vai adorar passar por média, eu, de minha parte, quero é prazo, jogue fora a rabichola e deixe a tanga voar, né não, meu camarada? Ia corrigir uma pilastra de exames finais, de Petróleo e Gás, especificamente, me deu um esmorecimento de repente, procrastinei, rá rá rá, amanhã vai ser outra manhã, tudo pode acontecer, até rebentar, por dentro do meu organismo, uma súbita, incontrolável vontade de trabalhar, quem sabe...
Quase nada na vida me dá mais prazer que escrever, sempre fui assim, desde caprichosa menina nordestinada a no Rio vir morar. Nas salas de aula do Colégio Nossa Senhora do Carmo da minha infância chatinha, que podia ter sido diferente, mas nunca foi, ora essa, fico com ela mesmo e mesma, é o que se tem, eu escrevia demais na sala de aula, por Deus do céu, matemática com biologia, tome-lhe física, química no toitiço, uma tortura, disciplinas de fazer o sujeito gostar de escrever, é isso. Religião, puta que o pariu, aula de religião, então, Virgem Santíssima, aliás, no instante em que eu, finalmente, compreender o que a aula de religião está fazendo dentro da escola, minha senhora, prometo que conto, imediatamente, a você. Para não faltar com a verdade verdadeira, minha grande diversão, meu passatempo, meu deslumbramento era a aula de Português. O meu semblante denunciava, provavelmente, nunca fui de abrir meu bico, nada disso, o olho da professora de Português atravessava o mar de gente, acredita? Olhar de imergir e trazer à tona, resgatar-me do fundo da sala, para eu respirar. Sempre arrastei um bonde pelas professoras de Português do Colégio Nossa Senhora do Carmo – Vera, Xênia e Zezé, as melhores da cidade, porque elas me viam, queriam saber de mim. Nem desconfiava, na época, que aquela casa abrigava nada menos que o crème de la crème das tecelãs das letrinhas. Essas três mulheres pescadoras de ilusão, em diferentes fases da minha vida escolar, conquistaram a minha alma e o meu coração. Tanto que desisti da Psicologia aos quarenta e três do segundo tempo, na fila do banco, prestes a fazer a inscrição para o Vestibular Unificado que os anos não trazem mais. Pisei o chão do CAC - Centro de AIDS e Contaminação, rá rá rá, o Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, carregando no peito a única certeza: serei professora de Língua Portuguesa.
Jamais consegui lidar com estrelismo, é uma brochação só, coisas de Seu Biu, minha senhora. A empáfia e o pedantismo não conseguem expressar-se no meu idioma, eu, de minha parte, nunca comprei o dicionário. Simplificar a vida, meu lema e bandeira. Eu não sou eu, nem sou o outro, rapte-me,camaleoa. Vou de mim para o outro e vice-versa, misturando as tintas. Uma história de amor vai e vem em ondas, como o mar lambendo a encosta, na rocha esculpindo o desenredo infinito. Pedra e água desencontradas, inacessíveis e indisponíveis, produzem desencanto só, e a inevitável, tantas vezes providencial, mudança dos ventos. Sou felicíssima, pinto no lixo, exercendo a minha profissão: I'm an alien, I’m a legal alien, I’m an English...  teacher, that’s it! Quase instantaneamente, desisti de ganhar o pão às custas da última flor do Lácio, inculta e bela, apesar da Licenciatura concluída com toda honra e toda glória, capricorniano é fogo. Fiz da língua do patrão a minha última morada, devo isso a Abuêndia Padilha e seu British accent I take tea, my dear, rá rá rá, a essa altura do baile, merecidamente aposentada, decerto, um beijo, querida. Professora Abuêndia e seu jeitinho manso de ninguém dar nada por ela, o cão de camisolão, foi ela quem, sabidinha com farofa, vislumbrou uma brechinha de acesso, na minha cara pálida de desgosto. Pois bem, Abuêndia descalçou ligeirinho as sandálias da fama, olhou, sorriu, acenou... e me tomou pela mão.


Para Lu, que puxou o assunto.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O outono da matriarca

Bom dia, diletos amigos e amigas da rede blogue. Hoje, a bem da verdade, desde ontem, amarrei meu bode, e com categoria. Faço de um tudo para esquecer a quarta-feira útil, praticamente engatada já, na gloriosa terça-feira da consciência negra, voto em três dias feriados, no ano vindouro, e para sempre, assunto encerrado, black is beautiful, eu quero um homem de cor, etc., etc., etc., quem me conhece, entendeu faz é tempo, que eu dava um quarto ao diabo para ser escurinha, rá rá rá, escurinha é foda, ‘aquela moça escurinha’, eita, eu dava um quarto ao diabo para ser pérola negra, no sangue, na mente, no gesto, no tom da pele, nos pelos, no clarão dos dentes, na graça, na resistência, esse furor, essa delicadeza, a coisa mais querida, a glória da vida. Dona Rita ficava era cabreira, ressabiada, quando eu dizia:  Mainha, escreva aí, ainda vou me casar com um preto retinto, que é para dar um upgrade na genealogia dessa família, melhorar a raça, me lembro como se fosse hoje, Dona Rita branca de neve, rá rá rá, olhava duro, pedindo a Deus que eu estivesse só de brincadeira. Eu quero me casar com esse aí, Mainha, isso era a gente vendo TV, eu, na pândega, for a change, instigando, referindo-me ao incomparável, intangível menino Milton Nascimento de três corações. No clã dos Oliveira, Dona Rita administrava o fã-clube do negão, tiete até o mucumbu, de carteirinha. Na hora de assistir ao negão reluzir no palco, ao vivo e na mais bela cor, sentadinha na segunda fila, a velha desabou com farofa, desmilinguiu-se toda ao som do blue, do pé à ponta, conto porque vi, meninos, eu vi. Dona Rita ria de morrer com a história do casamento com o negão, argumentava que a empreitada seria meio difícil, esse aí não gosta de mulher, aposto o que você quiser, minha filha! Tantos dos nossos desgostam do sexo oposto, quando se trata de fazer amor e sexo, minha nobre gente é uma figuraça, uma esquisitice, um laboratório, uma ciência, e a vida segue assim, lá em casa e no oco do mundo, segue gauche, estereotipada (que seja, ué?!), contraditória, exclusiva, aos trancos e barrancos, inclusiva, também, amém. “Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países, se não me veem, eu vejo e saúdo velhos amigos. Eu distribuo um segredo, como quem ama ou sorri, do jeito mais natural dois carinhos se procuram. Minha vida, nossa vida, formam um só diamante, aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.” Drummond e Milton Nascimento, a bênção.
Amanhã é dia de branco. Capricorniano original de fábrica, tadinho, sofre mesmo de véspera, mas nem é essa a razão do meu bico de tucano. O agravante é a frescura de Ronaldo. Meu marido acaba de surtar no melhor estilo, deu um piti daqueles, de drag queen menstruada com cólica, a senhora nem queira saber por quê. Chilique master porque, a essa altura do baile, eu não aprendi a estender a roupa na corda, dá pra tu? Aproveito o ensejo para salvar o seu matrimônio, madame: nunca, jamais, em tempo algum, exponha ao sol o primoroso enxoval, dobrando as altaneiras peças ao meio. Se pretende que o planeta sobreviva, com a gente dentro, estique as cuecas e prenda-as com dois pegadores, faça exatamente o mesmo com as crocodilas camisas do seu respectivo, deixe-as por um triz, penduradas na extremidade da extremidade, a um milímetro da queda fatal, do contrário, nenhum trapo secará, daqui até a eternidade. Colei chiclete no Manto Sagrado, venerável seguidor do meu destempero! Só não fico mais injuriada por causa do toró bem mandado, São Pedro, dessa vez, caprichou no dever de casa, tome-lhe chuva no cocuruto dos panos do quintal, exemplarmente espichados... e encharcados, rá rá rá, acho é pouco, para Ronaldo deixar de ser besta. Duas encarnações e meia agora, meu bem, para enxugar a trouxa de minha sinhá, tomou?
Não estou boa para pobre, pronto, falei. O infeliz do exame da tontura confirmou a suspeita da doutora: labirintopatia com discreto comprometimento da audição esquerda, manifestado, feito a gota serena, sob a forma de vinte e quatro horas de zunido na cabeça, isso apenas. Gastei sola de sapato, para cima, para baixo e para ambos os lados, a dama do asfalto, procurando a farmácia misericordiosa que me concedesse uma meia-entrada, um desconto de professor inadimplente, quando o próprio médico já vai dizendo olhe, a medicação não é barata, mas é a mais apropriada para o seu caso, minha senhora, a pílula é pó de pedra preciosa, pode confiar. E se eu lhe revelar que a maldita é feita de ginkgo biloba prensada? A senhora vai duvidar, né? Isso é o pau que mais tem no Mundo Verde, tem tanto que tão vendendo, doutora, barato feito bolo de goma! O comprimidinho do Mundo Verde tem o efeito de uma água de coco, no cérebro da desequilibrada, é mole? Para aprumar o juízo, tem que custar uma limusine, sabia não?! Em cada esquina de Cabo Frio, o remédio tem um preço diferente, de 95 contos (na Pague Menos) até 139 patacas (o preço da Tamoio, não passe nem na calçada, minha senhora!), preços vários, para todos os bolsos, pode escolher. Tô meio desconfiada de que a conversa com Drª Karina, justo no fim do fim de semana prolongado, foi que me deixou estropiada... A bolinha em questão, nas abalizadas palavras da especialista, aumenta o fluxo sanguíneo, melhorando a oferta de oxigênio na cabeça. A bula esclarece: indicado para problemas de memória, função cognitiva, tonturas, dor de cabeça, vertigem, distúrbios circulatórios periféricos, problemas de retina e, puta que o pariu, estágios iniciais de demência, como Alzheimer e demências mistas! O começo do fim? Ou o famigerado THE END, assim maiúsculo, propriamente dito? Deseja escapar de ficar velho, parceiro? Quem é coxo, parte cedo... Parta antes, meu camarada! 

sábado, 17 de novembro de 2012

Conto de areia

Fiz strip-tease na Santa Ceia, aposto a medula! Só me faltava mais era esta, o marido cobrando historinha nova porque é sexta-feira, me diga aí, rápida como quem rouba, madame, está direito isso, está, minha senhora? Perambulávamos, do verbo ‘tô à toa na pista, meu rei apreciaria um rolé ao luar?’, é público e notório que, em sexta-feira ampla e irrestritamente enforcada, a minha pessoa não bate o prego na barra de sabão, nem para o bispo, honrarás pai, mãe, o teu trabalho e o teu frosô, ficando a ordem dos fatores por tua conta, rá rá rá, toda vida comedida, me pelei de medo de extrapolar, de pecar por excesso, ‘menos é mais’ é o meu lema, quem foi ou é meu aluno, sei que sabe, hein, meu bichinho lindo da senhora mamãe dele, estarei faltando com a mais pura verdade, por acaso? Já comecei a rir com os meus botões, doida de pedra, da minha compulsão por tergiversação, vocês não atinam na vaselina maciota da gente manter um blog de fofoca, assim feito o meu, melhor um pouquinho, mais prestigiado, vá lá, um cyber diary arretado, positivo e operante com farofa (a coisa mais besta desse mundo de se fazer, visse, Luana?), se eu tivesse uma coluna semanal num jornaleco de quinta, ganhava um dinheirinho mais ou menos, sem sombra de aperreio, levando o leitor na banha da conversa, mais sopa do que tirar pirulito da boca de guri buchudo, escrever instantes é enganar o bobo na casca do ovo, simulando singular inteligência, espontaneidade, lirismo, ironia, picardia, criatividade pulsante, eloquência, blá blá blá, blá blá blá, o boboca narrador achando-se a bala, o último q-suco do deserto, rá rá rá, o bobo leitor comprando gato por lebre, eita, é muita besteira para uma página só, garanto que me aposentava muito antes de esvaziar o pote da lorota, numa boa, tarefinha fácil, extremamente fácil, demais até, chega perdi o bonde, ah, achei de novo, eu, Ronaldo e quatro mil oitocentos e doze mineiros, mais ou menos, enchíamos a tarde cinzenta (é folga, chove em Cabo Frio, é desse jeito!) de pernas brancas, pretas, verdes, vermelhas, amarelas e azul-varize, anda, manda teu corpo desmembrar..., de repente, na esquina da Assunção com a Francisco Mendes, incontestavelmente fora de hora, retumba o atrevido questionamento: “tu vai postar alguma coisa no blog hoje? Olha lá, o povo fica esperando, pensa que não? Deu linha, é fogo, agora, minha filha, aguente!
Veja bem, amigo seguidor, preste atenção, não é todo dia que o misterioso mar está para peixe grande, tem vez que a gente olha pedra e vê pedra mesmo, Adélia, principalmente quando o cósmico combinado, lavrado em cartório do céu, nosso amor do outro mundo, quem quiser, eletrocute-se de inveja, é cortesia da casa, ninguém jamais duvide do nosso encontro escrito nas estrelas, o combinado é o marido compensar cada ausência de curta ou longa duração, com o marido estudando um disparate jurídico qualquer, léguas distante da esposa adorada, na volta, é o seguinte, o marido tem de devolver a ela a calmaria, aterrar o cânion, reconciliar as extremidades do abismo, habilidoso e apto para ocupar todos os momentos e espaços ocasionalmente dedicados ao blog. O facebookiano que se preza, pormenoriza, em esguias fatias, seu doce e salgado dia-a-dia, na superexposição pessoal que eu também hiperproduzo, minha trademark é enfeitar maracá, é sabido, além disso, a rede é uma entre minhas vinte e uma manias, réu confesso. A essa altura do campeonato, a senhora está careca de saber que abandonei a partida no primeiro tempo, lacrei o notebook, para fazer coisa mais interessante, qual seja, amar a água implícita, o beijo tácito, a sede infinita. Navegar recônditos oceanos de prazer e de alegria, eita!, namorar o meu marido querido, até o diabo se escandalizar e Deus nada mais entender, assim seja. À galera do blog, as batatas, vão arrumar o que fazer, né? Desde o retorno do Rio de Janeiro continua lindo, estamos carrapatados, sem brecha para um inocente parágrafo, o causo principia e logo cansa, o mar não está mesmo para peixe, antes para a praia, em abençoada parceria. Me dá um beijo com tudo de bom e acende a noite na Guanabara, meu amor talismã. Você me dá tanta sorte, de cara.
Uma taróloga de Olinda, Dona Célida, aquele vulto de candura, falou bem assim, no dia da consulta: “o Imperador está chegando, Adriana, e ele vem de longe, cortando as ondas, para ser todinho seu, vem apagar a marca do açoite do passado, vem cicatrizar a chaga e secar o pranto de quem já sofreu tanto, vem na paz, bom e sereno, talhado para lhe ensinar as lições do amor maior, que você tão bem desconhece, minha menina, vem lhe inaugurar a primavera da vida, vem tratá-la a pão de ló, cuidá-la como da primeira rubra rosa amanhecida, da maneira que você merece, porque você, mais do que qualquer mulher, não se engane, não se martirize, Adriana, você, mais do que ninguém nesse atordoado mundo de meu Deus, merece. Não acreditei numa palavra, a senhora me acredite, comparei o discurso de Dona Célida a um anjinho barroco, atracar o barco, isso e aquilo, uma lapinha, superlativa babaquice, floreada de exagero, falando sério, não pretendo mais mentir nessa minha vida, fiz promessa. Achei que Dona Célida mentira com farofa, descaradamente, senhora dona da chave da poesia. Um belo dia, noite alta, vinha eu, lanhada de tempestade, gemendo de fome e de frio, mareada de tanto mar, exausta de naufragar, aí, tchan!, cumpriu-se a sagrada previsão da bruxa da Sé. Irrefutável destino: terra firme, afinal. Do escuro, avistei o cais, porto seguro onde ancorei meu saveiro, baixei e queimei as velas. Doravante, Ronaldo, velejar sozinha, nunca mais. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

The seeds of love

O galope só é bom, bem livre de cantar. Minha vontade, não vou mentir, é apelar para a pradaria, o alazão desestribado, campina afora, baque solto e virado nos pentelhos de Jane Fonda, duas de mim no retrato, eu no berço da estrebaria, eu rasgando no dente o bucho da ventania, ancas indômitas, amplo quadril insurgente, requebrando na sela, mal escanchado. De sábado até aqui, sem tirar um dia só, absolutamente maracatudo convulsiona-me as artérias do coração e da mente. Às vezes, minha senhora, não se encontram as palavras que se está respirando. O apressado come cru, reza o ditado, entre sentir e elaborar, aspiro as partículas acontecidas, pelo bem de vagar, é meu dever inspirar e esperar. Mamãe eu quero morrer percutindo a tamarineira alfaia retumbante, numa batucada de bamba, alma cheirando a talco e a pó-de-arroz, valeu, Fluzão! (singela homenagem a Ronaldo, menino tricolor carioca, a loucura e a besteira que dorme comigo...), baticum bumbum de bebê, sacudindo as recentes pelancas ao sabor do jaz aqui mesmo, a vez é esta, no gargarejo da vida – bastidor e palco iluminado. Em cada pancada, o enredo ecoa, o bombo rompe a semente. A fofoquinha de hoje trocou de roupa dezoito vezes, anda ainda nua pelo meu país, a mais cristalina verdade. Mudou de cara e cabelo, mudou de olhos e riso, mudou de sonho e de tempo, desconfio que a carta na manga-rosa – doce essência imaculada – segue comigo, so(e)mente porque é franzina e sozinha, desde criancinha. Se existe um viés pacificado e ‘pacificante’ (UPP particular, rá rá rá...), no turbilhão de inconsistências do meu desajeitado estar à flor da pele do mundo, esse viés é o cochicho das horas sob o capacho dos dias, passa anel, passarela, passatempo, um ponto, um conto em cada canto da memória, história na gaveta puxa mote do decote costurado na coxia.
Nunca vou me libertar daquela música, desisto. Quando aposto meu fígado que esqueci, subitamente, assombrada, recordo. Dedilho o aço do instrumento impenetrável, solfejo, assobio, a voz encontra a nota remota, o verso antiiigo, como se ao passado barco coubesse resgatar o futuro náufrago, sempre fui retrógrada de todo, de carteirinha, caprina cantante e dançante... retroativa. Deve ser por isso que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez. Das muitas terapias experimentadas na roda de samba, amigos leitores, claro, que ninguém é doido de achar que sou madura, centrada, aprumada e bem resolvida assim (rá rá rá rá), de graça, nananina, já lanhei o lombo em quase todas as modalidades de tratamento psicológico existentes, divãs alhures, de todas as vãs naturezas, suingues módicos, caros, caríssimos, exorbitantes e indecentes, das muitas terapias, foda mesmo, com farofa, foi a provocante biodança. Entrei de gaiata no navio, entrei, entrei pelo cano, pela graça divina. Fazia análise transacional, na época, mais perdida de mim do que um ceguinho no ranger do tiroteio, morria de medo do respeitável público, do julgamento alheio. O psicoterapeuta, um dos sujeitos mais sabidos da minha vida, de saída, farejou que o buraco era muito mais embaixo, recomendou a suruba redentora: biodança na veia, me disse pra eu ser feliz e passar bem, ora bolas. Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci. Biodança, a ciência dos sentidos, é terapia grupal, trata-se do seguinte: tome-lhe música, emoção, movimento, envolvimento e confronto – a evocação do quarto escuro, enfrentamento decisivo com as aberrações internas que o sujeito deseje, de uma vez por todas, descortinar, para ver o bicho que vai dar, um lance assaz estimulante e exigente. Caiu-me como uma luva a brincadeira, dois encontros por semana, mais as imersões, no meio do mato, os instigantes projetos Minotauro, pau para comer sabão e pau para saber que sabão não se come, três anos de inferno e maravilha, sob o doce olhar atento, dentro dos braços de nuvem de Almira Rocha, a encantadora de gente. Por falar em saudade, Mira, onde anda você? Onde andam seus olhos que a gente não vê?
Anteontem, conversava com um colega de profissão, a respeito das relações interpessoais da sala de aula, assunto para um engradado de cerveja, vamos combinar. Papo de gente grande, a gente discordando visceralmente dos respectivos antagônicos pontos-de-vista, sem ganas de ofender ou injuriar, entretanto, deboche e humor maduros, jamais confundidos com insulto, a expressão da felicidade, afinal de contas, eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias, bonitas, possíveis, sem juízo final. Conquistei, ao longo da estrada, o direito de defender que o bacana de ser professor é a intimidade, minha senhora. O bacana da intimidade é a confiança recíproca de que a intimidade se alimenta, dia após dia. O bacana da confiança é o consentimento para errar o passo, sem desanimar. O bacana de errar é superar, acertar na mosca, logo adiante. O bacana de acertar é mudar. A gente não pode é trocar alhos por bugalhos: ser sem-vergonha não tem absolutamente nada a ver com ser vulgar, antes com esbanjar coragem de ser quem a gente é, essa metamorfose ambulante. Amor é o que dá coragem e coragem é flor que dá no generoso jardim do reconhecimento do limite individual, em vias de dilatar-se. Quem não soube à sombra, não sabe à luz. Dor de transformação. Cada coisa em seu lugar, cada lição a seu tempo. Os desafios são para você desistir, sem que isso, eventualmente, represente fracasso, sobretudo, para você resistir e celebrar o eterno deus mudança. The seeds of love blow with the wind of change, dear William. O galope só é bom, bem livre de cantar. Let your balalaika (should I say saxophone instead?) sing! 


Para os pupilos de Hospedagem 1, protagonistas da comovente aula de sábado. Did you ever think that we could be so close, like brothers? 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A dona da história

Minha suspeita virou fato consumado. Fábio Lima, da crônica passada, crônica passada é o máximo, acabei de me lembrar da minha mãe, de quem jamais esqueço, questão mesmo de sobrevivência, a minha mãe dizia ‘coma não, está passado!’, referindo-se ao alimento esquisito ao seu apuradíssimo olfato, àquele pão de aspecto e aroma vencidos, às frutas, principalmente, ‘coma não, está passada, é comer e adoecer!’, parece até que, no preciso instante de que preciso, preciso instante de que preciso, ali na esquina da Saudade com a Sossego, a dois passos da União, assisto, carpida de nostalgia, à cena: o nariz enfiado na geladeira, supervisionando as catequinhas plásticas, isso sim, isso não, isso Deus me livre. Deus é que sabe como escapo da disenteria e da cólera (é mágoa!), sem o seu cuidado, Dona Rita, minha estimada mamãe, mamãe querida do meu pobre coração atormentado... Deus é que sabe. Darei continuidade ao pontapé desalinhado de mais uma resenha antecipada, minha senhora, com fé no Altíssimo, vá desculpando tamanha escassez de foco. Antes, entretanto, imodesta com farofa, por todos os meios e para todos os fins, declaro que os mais belos nomes de rua do mundo inteiro, e de Marte, floresceram no glorioso Recife da dona da história. Rua da Saudade, do Sossego e da União. Rua do Sol, da Harmonia, da Amizade e da Aurora da minha vida que os anos não trazem mais. O miolo da Veneza Brasileira estende os braços para a Rua do Hospício - asilo, exílio - um privilégio para poucos. Receio enlouquecer. Acuda, mainha! Não bastasse a cor do acolhimento nos muros do meu Recife Antigo – abrigo, percorrendo os caminhos de volta para casa, piso poeira e poesia na polpa do meu chão adorado.
A crônica passada está dentro da validade, fique à vontade para ler a Trança, você, bem-vindo amigo recém-chegado à ciranda, García Márquez foi um upgrade, rá rá rá, convém intercalar, vez por outra, entre os meus devaneios idiotas, alguma coisa que, de fato, preste para alguma coisa, sabe como é, um vestido novo emprestado, para valorizar as curvas do blog, do contrário, uma hora dessas, aposto meu caçula que ninguém mais me visita. Trança tem fim, metade e começo, essa aqui, pelo andar da carruagem, não garanto. Por falar em dar uma passadinha para um café e duas cuias de conversa mole, soube que Fábio escreveu um comentário sobre Trança, ele próprio me disse, fiquei em cólicas para ver, Fábio é balaio cheio, minha senhora, um cara de discernimento e profunda inteligência, opinião abalizadíssima, portanto. Um pitaco favorável de Fábio, e eu, depois de amanhã bem cedo, publico uma brochura de devaneios idiotas, com direito à noite de autógrafo e tudo, tudo devidamente organizado por meus impolutos alunos do curso de Eventos, os melhores fazedores de festa do Rio de Janeiro. O lance final nada mais é que o seguinte: as pessoas pensam que escrevem coisas bacanas (ou não, rá rá rá), eu corro para autorizar as postagens, a resposta é o silêncio que atravessa a madrugada, uma brochação com pedigree, pense aí. Aconteceu várias vezes. Lamento informar, leitores do Brasil, mas não tenho como resolver isso porque não aprendi, eu abro a boca quando tenho certeza, do contrário... Gastei três dias e três noites construindo este virtuoso espaço de baixa tecnologia, uma janelinha chinfrim com varal para pendurar letrinhas, nada mais. Não sei otimizar o blog, até porque odeio o verbo otimizar, imagina se tenho cacife para orientar meus colegas sobre como comentar meu texto. A escola está recheada de informáticos de todas as fragrâncias, outra categoria de gente do melhor cetim, outros que trabalham pouco, rá rá rá.  Aliás, as incansáveis operárias daquela instituição são as professoras de idiomas, coitadinhas, sendo, delas todas, eu, de longe, a que mais trabalha, cada um venda o seu peixe, né, meu diretor? Minha sugestão para os nobres colegas é rasteira feito poleiro de pato: troquem uma ideia com essas adoráveis criaturinhas cibernéticas, meus respeitos e um beijo em cada um, busquem a luz no fim do túnel. Eu já morri de ensinar que o sujeito pode arruaçar à vontade, soltar a língua, picotar o verbo a valer, a moderação de comentário existe, ora bolas, sei fazer bom uso dela, basta o sujeito assinar depois, escolher a opção anônimo e enviar o presente. Se for de grego, eu mando para o raio que o parta, simples assim. Só não me deixe só, que eu tenho medo do inseguro, gentil senhora.
Desconfio que perdi o fio da meada, uma atipicidade. O mote de hoje, doçuras, em qual esquina dispersou-se, realizo que não sei. Sentei-me diante do computador, cabeça latejando, na intenção de aliviar a dor do peito opado de saudade. Engraçado é que meu cérebro doente sabe de cor a trilha sonora de todas as ausências. Não posso esperar tanto tempo assim, me sinto só, me sinto só, me sinto tão seu. Que culpa a gente tem de ser feliz? Que culpa a gente tem, meu bem? É o velho amor, ainda e sempre. As torcidas botafoguense, fluminense e rubro-negra sabem que Ronaldão bateu asa, está fazendo um curso sobre um desses assuntos jurídicos que ele ensina a qualquer desembargador, com o pé nas costas, desde criancinha. Ronaldo é rato de escola, tem uma disposição invejável para estudar o que já aprendeu, um troço impressionante. Ninguém tire meu marido por mim, sou completamente diferente, daí o encaixe perfeito. Eu sou de sair de sala de aula assim, totalmente impactada com minha esférica burrice sem vestígio de quina que eu perfure para acessar o conhecimento de qualquer besteira fundamental para a minha condição de humanidade diuturnamente (des)construída. Sempre contei com a sorte e com o correr da vida para entender um pouco de tudo, bem mais para adiante, no futuro de um pequeno dia. Desisti de fazer conta das intactas novidades descartadas à beira da estrada, investigações que sequer desembrulhei, esgotada de susto e de preguiça. Se alguém quer matar-me de amor, que me mate na Hospício, onde ainda hei de residir, beleza maluca, decerto. A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima- irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos. Meu cérebro doente sabe de cor a trilha sonora de todas as ausências, meu amor. Onde é que você some? Que horas, me diga que horas, me diga, que horas você volta?

Para ele, minha bússola.